terça-feira, 4 de junho de 2013

Faz Muito e Fica Pouco

Outro dia, um homem me disse de um modo indagador que carrega a sensação de não estar envolvido no que faz. Vive como se estivesse sempre por detrás das situações, muito mais numa posição de observador do que de protagonista. Falou-me que nada o abastece, como se tudo que ele realizasse o escapasse. Disse-me algo como se sentir um perdulário da própria vida, pois nunca consegue ter a sensação de que usufrui profundamente o que vive.
Este depoimento está longe de ser um testemunho isolado.
Muitos carregam esta sensação que o tempo passa e as coisas parecem seguir na diluição, sem deixar signos dentro de cada um.
Vivem como se o corpo objetivo estivesse numa viagem experimentando as situações, mas o corpo subjetivo estivesse impedido de vivenciar, de segurar, de se nutrir e com isso produzir a internalizada presença da vida. Alguns reclamam inclusive que esquecem o que fizeram.
O que está acontecendo?
O mundo em que vivemos como afirma o psiquiatra e psicanalista Joel Birman é uma fonte permanente de surpresa que nos pega de forma contínua.
Hoje, nesta modernidade prega-se a ideia de que para se construir a sensação de existir deve-se viver de forma frenética. A ideia de intensidade ou mesmo profundidade foi substituída pela velocidade.
Na expectativa de conseguir realizar a vida nessa intensidade que o atual impõe, a pessoa acaba envolvida no mundo dos excessos.
Incapaz de barrar essa exigência ela passa a realizar apenas performances, porque se torna nessa forma impedida de extrair mentalmente as sensações de vivência. 
É nesse contexto que surgem as sensações de esvaziamento do tempo e a subjetiva sensação de ausência no que faz. Como afirma Birmam, as pessoas estão sem espaço para que a simbolização das situações seja realizada mentalmente.
Sem pausas entre uma tarefa e outra, no total encadeamento frenético de tudo que fazem, as redes neurais ligadas às memórias de prazer e vivências, ficam sem o tempo necessário para realizarem os processos de assimilação. 
Vive-se fora, mas não se registra dentro nos setores límbicos do prazer profundo.
Vejo pessoas tão frenéticas que parecem nem pisar no chão que caminham. Zanzam de um lado para outro e chegam em cima da hora para tudo, nos cinemas, no aeroporto, na festa, na ginástica e até na sexualidade devem viver como a personagem de Faye Dunaway em Rede de Intrigas, em que ela ganhou o Oscar e o Globo de Ouro, na cena em que na cama com seu amante ela fala no telefone com a emissora de televisão na qual trabalha, anota no papel ideias e beija. Apesar da presença da horizontalidade do sexo permanecia com a cabeça na verticalidade dos comandos da vida diária.
Aonde estava?
Na ansiedade de se sentir potente, capaz e moderna esgotava a si e a vida a cada segundo.
Inseridos nesta dinâmica de hormônios do estresse, para a glória dos laboratórios, se entopem de químicas para criar antídotos contra a sensação de ausência da vida.
Ser moderno é hoje ser ligado e com isso se excede na “Síndrome do Wi-Fi”, ou no chamado “Complexo de BlackBerry” onde vive-se sem pausas para a reflexão ou assimilação sobre as situações e os momentos  experimentados.
Isto está tão grave que a Microsoft estabeleceu que os e-mails recebidos fora dos horários de trabalho, entre sexta-feira e domingo estão isentos da obrigação de serem respondidos pelos funcionários.
O que ficou em você do ultimo filme?
O que você leu no jornal de hoje?
O que permaneceu de mais forte do seu dia?
Aonde você está?
Para que as memórias emocionais de prazer possam ser estimuladas deve-se ter um tempo para a simbolização do que se vive ou viveu.
Fui assistir com duas amigas o filme Terapia de Risco e apesar das entradas já estarem compradas, chegamos antes, bebericamos cafés, borbulhamos em conversas e depois nos sentamos para deixarmo-nos ser invadidos pelo instigante script. Terminado o filme saímos para jantar e levados pelos vários temas do enredo, percorremos nossas vidas quase por inteiro. Fizemos diante das delícias, uma terapia sem risco.
Uma noite que foi simbolizada e irá permanecer nas horas em que irei recorrê-la.
Sair de um filme e sentar para jantar e realizar a atenção reflexiva sobre o visto, faz além de um exercício de intelectualidade, uma possibilidade da mente transformar a experiência em vivência.
O que isso significa? O seu programa irá abastecer você e trará a sensação de se ter vivido, mais inserido no que fez.
Conforme o psicólogo Sérgio Sinay afirma: “Para viver no presente é preciso haver um passado, é necessário passar pelo tempo e deixar um rastro. Do contrário, vive-se só no momento fugaz”.
Chegue mais cedo, para que a mente possa absorver e se preparar para viver o que você programou para que a sua vida seja interessante.
Ao terminar de ler esta crônica você irá passar de imediato para outra coisa? Dê uma pausa para que o conteúdo seja simbolizado e possa este seu momento de leitura nutrir a sua essência.
Faça com que a vida de fora aconteça dentro.
Faça um pouco disso e tudo ficará muito mais em você. 
Sabe aquela sensação que o tempo se foi e nada deixou? Tem a ver com você mesmo. Ele sempre dura os instantes, somos nós que podemos eternizá-los em nossa alma.
Pense mais no beijo que deu, no banho que tomou, na viagem que fez nos orgasmos que teve e transforme vida em vivência.
Todo dia é dia de começar.
Entre uma coisa e outra ponha você.
Faça Muito, mas Faça Melhor.

Imagens: GettyImages



11 comentários:

  1. Quanta sabedoria dita de forma muito clara!!!
    Caro Manoel vc tem esse poder de transformar coisas complicadas em simples e accessível.
    Obrigada por vc estar presente em nossas vidas!!
    Ana Paula

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  2. Estou adorando suas cronicas, está sendo uma ótima parada!!!! Bj, Teresa.

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  3. Estou adorando suas cronicas, está sendo uma ótima parada!!!! Bj, Teresa.

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  4. "Dê uma pausa para que o conteúdo seja simbolizado e possa este seu momento de leitura nutrir a sua essência." Perfeita a frase!! Parace que a pausa não é possível. E sem ela, não há diferença entre uma crônica e outra, ou entre presente e futuro. A pausa, tão desvalorizada, é também essência e portanto, essencial. abraços Marcelo Elman

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  5. Show,como sempre entrando na nossa alma. Como no filme que vc avaliou com as amigas, aqui Tb se da uma parada para avaliar o que apreendemos da vida diária .
    Bj
    Vera Gon

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  6. Prof. Manoel Thomaz,
    Nos tempos atuais, para poder "PENSAR BEM" sem aquela dose de humildade onde egos vivem ansiosos pelas platéias e pelos aplausos vai dificultando exercitar:
    FAZER MELHOR! FAZENDO MUITO!
    bjs
    Jacintha













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  7. e... assumindo.. ser..estar...parecendo ..BOBINHA!
    e...assim... BOBINHA...cá estou...entre uma coisa e outra...fazendo pouco...tentando...fazer...quem sabe??
    MELHOR!!
    com açúcar...com afeto!
    maria edna

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  8. gostei imensamente do texto.Vou tentar praticar e "curtir " o presente e saborear cada minuto.
    Sonia S de Souza

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  9. Parabens Manoel! Hj foi minha primeira cronica...muito bom! A minha caminhada na vida esta sendo lapidada com suas palestras. Zelia Carmo

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  10. manuel eu sinto que não absolvemos o que passa por nós.tudo é muito corrido,tudo vai ficando obsoleto sem que tenhamos fixado o que passou.muito verdadeira essa cronica.bjs

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  11. estamos vivenciando esse contexto.tudo passa tão rapido que não absolvemos o que deveríamos.bjs

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