segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Boas Festas

De Paris desejo um Natal em que o presépio seja pessoal e traga o renascimento dos bons desejos e que 2014 seja o espaço para se realizar a expansão de si. Com gratidão a todos aqueles que passaram pela minha vida em 2013 e que contribuíram para eu considerar este um ano que valeu a pena ser vivido... Com um beijo a todos.
Manoel

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Link do Programa Alternativa Saúde


Para quem não assistiu, aqui está o link do Programa Alternativa Saúde do dia 03/12/13 com a participação do Prof. Manoel Thomaz Carneiro. Clique no endereço abaixo para abrir a página do programa.




domingo, 1 de dezembro de 2013

Participação no Programa Alternativa Saúde - GNT

O professor Manoel Thomaz Carneiro participará do programa Alternativa Saúde com Patrícya Travassos na próxima terça-feira, dia 03/12/2013, abordando sobre o luto da dor. O programa vai ao ar no canal GNT da TV paga às 22 h. Não percam!

 Alternativa Saúde (Bem Estar) Ep Alegria

Neste programa, vamos conhecer as histórias de duas pessoas que superaram grandes obstáculos na vida: a jornalista Luciana e o paratleta Yagonny. O especialista Manoel Thomaz Carneiro é psicanalista e fala sobre o luto da dor.

Horários alternativos:
QUA 12:00 h
QUA 16:30 h
SEX 18:00 h
DOM 06:00 h
TER 19:30 h

Viver no Direito ou no Avesso


Leiam a crônica do prof. Manoel Thomaz Carneiro escrita exclusivamente para o blog 40forever em:


http://www.40forever.com.br/viver-no-direito-ou-no-avesso-por-manoel-thomaz-carneiro/

domingo, 17 de novembro de 2013

Talk of the Town - Livro Pense Bem

C O N V I T E

O Talk of the Town convida para debate em inglês sobre o livro "Pense Bem - Ideias para Reinventar a Vida", do professor Manoel Thomaz Carneiro.
O debate será realizado por Alda Correa da Costa sem a presença do professor Manoel Thomaz Carneiro que estará em viagem.

Datas: quarta-feira, 4 de dezembro, às 14:30h ou quinta-feira, 12 de dezembro, às 16:30h
Local: Talk of the Town - Rua Visconde de Pirajá, 351 sala 1002 - Ed. Forum Ipanema.
Os debates são gratuitos, para pessoas com nível de inglês intermediário ou avançado.
Confirme sua presença na data desejada por telefone:
2227-4067/ 98879-7689 
ou email: contato@talkofthetown.com.br 
As vagas são limitadas.

domingo, 10 de novembro de 2013

Novembro Chegou? É Tempo de Acelerar.

Durante a semana o meu celular resolveu aos poucos começar a desistir de ser carregado, semelhante a uma depressão, se desmotivou a existir.
Só via com desespero o marcador da bateria diminuir pouco a pouco, pois atualmente só recebo chamadas nele. Quem deixasse uma mensagem iria pensar que o meu silêncio na resposta poderia ser um descaso.
Sendo assim no sábado fui ao Shopping Leblon tratar logo de substituí-lo.
Cheguei à loja, e a senha que peguei me trouxe uma boa surpresa, eu seria o segundo a ser atendido. Havia uma mulher com o número anterior ao meu, que me olhou e um pouco acelerada me perguntou: “Você nesta época do ano não fica mais atordoado?” e, sem esperar a minha resposta, continuou: “Eu fico doida quando o mês de dezembro se aproxima, perco qualquer senso de tranquilidade e começo a fazer mil coisas. Às vezes acho que o meu filho tem razão quando me diz que eu pareço mesmo é com um celular com muitas funções”. Assim ela concluiu a auto definição e eu pensei em silêncio no meu celular quase em coma, tão pouco dinâmico.
Sem mesmo saber quem eu era, me lançou a pergunta metafísica; “Será que tem a ver com a conjunção do céu de novembro com o de dezembro?”.
Respondi: Claudia Lisboa poderia nos responder como faz ao final de cada previsão do horóscopo: "É tempo de acalmar ou É tempo de acelerar".
Resolvi tomar a palavra e finalmente explicar para ela o que pensava a respeito através do enfoque psicológico, que afirma que ao final do ano nossa mente quase que de modo espontâneo nos impõe o movimento de busca em zerar pendências.
Começamos a partir desse instinto de balanço dos feitos e dos não feitos, a sentir uma ansiedade em relação às coisas que deixamos para depois: a pintura da varanda; a bainha de uma calça; o dentista; o exame clínico que nunca é realizado mesmo já tendo o pedido em mãos; a nova forração de uma cúpula; a lavagem dos tapetes; o arranhão na lateral do carro; a dieta; o início de uma atividade física; a visita a alguém; a conversa séria com a mulher; a conversa com a nora sobre indelicadezas recorrentes; a leitura de um livro que está na cabeceira; o término de um namoro; a renovação do visto americano e sem esquecer a renovação da carteira de motorista... Viu, são muitas coisas, não é?
Ela me olhou e me disse: “Nossa! Sou esta pessoa”.
Eu a respondi as gargalhadas: “Muito prazer, Senhora Desespero”.
Finalmente foi chamada. Tinha chegado o momento de ticar mais um item, ou quem sabe nada seria feito.
Comecei enquanto aguardava a minha vez, a pensar nas coisas que gostaria de resolver antes do final do ano. Ao final de um tempo ela levantou e me disse com um sorriso largo: “Consegui ticar mais um item da lista. A Senhora Desespero vai continuar! Boa sorte para você!”.
Rimos com a cumplicidade de sabermos que iríamos continuar em nossa humanidade apressada de fim de ano.
Lembrei enquanto eu já estava diante do eficaz atendente, sobre o que havia lido no Caderno Ela do jornal O Globo daquela manhã, onde um artista plástico dizia estar inaugurando uma exposição em homenagem “A Capacidade Feminina”. Declarou que achava que elas dão conta de tudo e que parecem ter vários braços. Pensei quando li – Realmente elas possuem vários braços, várias versões delas mesmas e muitas vezes, várias culpas que funcionam como baterias que as movem de uma atividade para outra, de um compromisso para outro, de novembros a dezembros. Ufa!
Pensei também nos homens que funcionam com várias pernas como se fossem IPHONES ou GALAXYS, multifuncionais, também muitas vezes movidos pela culpa.
Ao sair da loja com o celular substituído, resolvi dar uma volta e ao olhar para o alto vi que até o Papai Noel já chegava pelo céu do Shopping.
Com este trânsito atual no Rio de Janeiro, ele quem sabe se disse como no horóscopo de Cláudia Lisboa: É tempo de acelerar...
Vamos em frente com o trenó do Papai Noel...
Afinal, queremos entrar no próximo ano podendo de alguma forma dizer:
Ano Novo! Lista Nova!
Novembro chegou! Quem sabe possamos realmente dizer: É Tempo de Acelerar!

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Ideologias? Quero várias para viver


Outro dia quando me aproximei do Copacabana Palace, ouvi os gritos de jovens, que tentavam mobilizar o cantor canadense Justin Bieber a aparecer na sacada do hotel e quando finalmente ele surgiu fiquei até arrepiado com o imenso grau de euforia do público.
Fiquei tão tocado com a vibração que comecei a me investigar para saber o porquê deste meu envolvimento com algo que não passava pelas minhas preferências. De súbito voltei aos meus exatos cinco anos, quando sentado nos ombros do meu pai, diante da mesma sacada vi a atriz francesa Brigitte Bardot.
A memória do delírio de todos e dos fotógrafos permaneceu intacta em mim e a partir dali, herdei do meu pai o ídolo Bardot. Passei muitos e muitos anos guardando revistas e ainda guardo os livros que reúnem coletânea de fotos e os dois volumes da corajosa autobiografia, onde fala com verdade sobre a bipolaridade e o problema com o álcool que precipitou a perda do viço que nela fluía com tanta sensualidade.
Enquanto finalizava o percurso da corrida para entrar na minha rua praticamente ao lado do Copa, um surfista na bicicleta disse alto em minha direção: “Nossa que histeria, já não basta ver o show?”. Sorri sem dizer que eu estava naquela hora imerso em minha histeria de outrora, mais precisamente no ano de 1964.
Ali, naquele instante, me inspirei no tema desta crônica ao pensar que nos construímos através das referências que definem nossas preferências e, portanto nossas identificações. 
Nossas identidades se firmam através das introjeções que fazemos das ideias e dos comportamentos na maioria das vezes ocorridas de modo inconsciente. Herdamos a cultura de nossa época que se expressa através da nossa forma de falar, de vestir e de refletir a vida.
Ninguém fala do mesmo modo que no século 19 e nem tampouco reflete as situações com os mesmos padrões morais e psicológicos daquela época. 
Somos frutos das sementes contidas nas frutas ideológicas que ingerimos.
Como afirma o psicanalista Jorge Forbes “Nascemos desbussolados”, e somos norteados ao longo da vida através da assimilação vertical que realizamos sobre aqueles que consideramos superiores ou que elegemos como referência em algo.
“O sujeito humano se constitui por meio de outros sujeitos humanos”: esta é uma noção fundamental para a qual Freud atraiu a atenção. A respeito disso a psicanalista Elisa Cintra afirma que esse processo se realiza “Não apenas no momento do surgimento, mas ao longo de toda a vida a pessoa se constrói e se reconstrói, ou se destrói e se fragmenta, a partir das inúmeras influências que recebe dos outros, que vão sendo metabolizadas e assimiladas ou que, por outro lado, podem constituir um eu”.
As comunidades tribais, ancestrais em milênios a esta ideia freudiana, intuitivamente já elegiam os totens que se tornavam as referências quantos aos modos de ser e de pensar e que, portanto deveriam ser assimilados para a formação identitária do eu individual. Nas mitologias grega encontramos as narrativas épicas que eram formas indutoras de reflexão aos modos de se constituir como pessoa para a trajetória existencial...
Pensamos no “Si Mesmo” através das narrativas... A pergunta tão comum quando somos pequenos “O que você vai ser quando crescer?” já reflete esta indução para se olhar um Outro posicionado numa hierarquia superior para ser percebido como uma referência para a construção do Ser do futuro.
Fui assistir o musical biográfico “Cazuza - Pro dia nascer feliz.”, dirigido por João Fonseca, do mesmo de Tim Maia, que é emocionante.
Tive muitas identificações em relação ao meu modo de ser no que tange a vontade de criar e expressar palavras para se pensar e denunciar as inglórias da vida não refletida...
Tem uma música do Cazuza que fez muito sucesso, intitulada Ideologia em que diz “Meus inimigos estão no poder... Ideologia... Eu quero uma para viver...”. 
De fato o mundo perdeu as grandes verticalidades de ideias, os ídolos são efêmeros na existência, os pensamentos se esparramaram nos excessos. Tudo no muito se enfraqueceu e as pessoas estão perdidas sem grandes narrativas para se balizarem nas autodefinições. 
Para se definir como identidade precisa se saber mais e se projetar com bussolas precisas. Se o mundo está diluído e enfraquecido nas ideologias, uma pessoa pode fazer uma contracorrente e começar a prestar atenção nas premissas adotadas, nas referências eleitas. Há que se tornar mais responsável em observar a qualidade do que elege como positivo e formador de si.
Sócrates, o filosofo grego, às vezes andava pelas ruas de Atenas onde havia o comércio e os vendedores chegavam à porta e perguntavam-no: “O senhor deseja alguma coisa?” e ele os respondia: “ Não, estou apenas observando quanta coisa existe de que eu não preciso para ser feliz”. Esta passagem ritualística da vida dele foi chamada de Passeio Socrático.
Esse passeio filosófico também deve ser realizado para avaliar quais premissas foram oferecidas e quais delas você as adotou, às vezes sem mesmo perceber este movimento, mas que estão sendo negativas na sua formação de habilidades para você viver bem.
Enquanto estamos vivos a nossa presença no mundo é fundamental e conforme afirma o filósofo algeriano que viveu grande parte da vida em Paris, Albert Camus, “Temos que aproveitar o mundo de maneira que sejamos felizes”. 
Para vivermos esta filosofia de Camus, temos que construir alicerces de pensamentos que nos formem e forneçam aptidões e habilidades para se viver com boas destinações o destino que se apresenta.
Tenho uma cartografia psicológica que constitui o meu modo de ser e portanto é essência das minhas reflexões para que eu sob o efeito delas “EXISTA”, pois mais do que sobreviver o meu enfoque é a condição de existir bem enquanto permanência.
Para eu hoje em dia gritar como fã diante da sacada do Copacabana Palace, teria que estar nela alguns pensadores, alguns atores, algumas pessoas que de um modo significante souberam se conduzir ou souberam pensar a existência e que deixaram para nós um legado de pensamentos que me fornecem “Uma Ideologia Para Eu Viver”. Dentre tantos me faço fã de:
- Nietzsche em “Quem luta com monstros deve velar por que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro. E se tu olhares durante muito tempo para um abismo, o abismo, olha para dentro de ti”. 
- Freud com a norteadora ideia que temos que desenvolver a capacidade de se sustentar em nossas opções.
- Lacan ao sinalizar que a transformação sempre ocorre quando assimilamos as ideias de um Sujeito Suposto Saber e através desse processo psíquico nos perfazemos no Saber Sabido, Sabedor em Ser.
Seria também fã da sacada do Copa de:
- Clarice Lispector em “Ao acordar vou correndo limpar a poeira da palavra amor.”.
- De minha mãe Virginia com afirmação que “Todo dia é dia de começar e Recomeçar – Nunca é cedo! Nunca é tarde para se estabelecer o pacto com a renovação.”.
- De meu pai Paulo com a orientação: “Meu filho, o mundo é um enorme varejo de tudo. Busque pesquisar a felicidade em todas as formas”.
- Da ideia de que não devemos estar em dois lugares ao mesmo tempo. Ser dividido é ser fracionado e, portanto enfraquecido.
- Também aplaudiria a ideia que devemos perdoar o destino para que possamos caminhar livres do peso dos ressentimentos e com isso possamos nos adentrar nos futuros com a alma sem excesso de peso.
Se Cazuza também surgisse no balcão eu também aplaudiria, como aplaudi muito o ator Emílio Dantas que o personifica de modo impressionante no musical... Pois precisamos de Ideologias para se Viver Bem...
Afinal, você ampara os seus sentimentos em quais ideologias?
Cuidado, algumas são assassinas e destroem.
Seja dono de seus atos, seja dono de si e tenha propriedades sobre os conteúdos dos pensamentos que norteiam suas respostas às situações.
Seja um Bom Bussolado.
Como disse Sartre. “Não importa o que os outros fazem da gente. Mas o que a gente faz do que os outros fazem da gente”.
Ideias boas nos fortalecem nos fazem protegidos contra as roeduras...
Perfazem psiquismos sólidos como madeiras que cupim não rói.
Ouça, no link abaixo, a marchinha que recebi de uma amiga e postei para fechar esta crônica. Certamente ela fez parte dos bailes de carnaval do Copa...

http://www.youtube.com/v/65xO2KtsbWQ?version=3&autohide=1&attribution_tag=YQDaEI3vPCBNUv_cs7p-qw&autoplay=1&autohide=1&showinfo=1&feature=share

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Criar com Potência

Na minha corrida habitual, outro dia já na metade do percurso, subitamente ao desfocar meus olhos das reflexões que realizo quando a endorfina me faz estar em contato com o meu mundo subjetivo, vejo vir na direção contrária a minha um rapaz que há muito não o via. Foi um susto, pois há certo tempo ele de um jovem e saudável corredor havia se transformado num mendigo.
Acompanhei em tempos intercalados com tristeza e incompreensão a gradual decadência desse rapaz. A última vez que o tinha visto estava cercado de papelão na calçada da rua Barata Ribeiro, com calças rasgadas, pés imundos e um olhar amarelado, mas apesar de tudo ainda conservava a aura de alguém que não nascera naquelas condições.
Que alegria senti ao vê-lo saudável com uma roupa de corrida impecável resgatado de não sei qual pesadelo. 
Após essa visão de esperança nos resgates da vida, de imediato, lembrei-me que havia citado na minha aula o conceito Aristotélico de Ato e Potência.
Segundo Aristóteles, pensador grego que viveu em torno do séc. VI antes da era cristã, as coisas podem estar em Ato ou Potência. 
Ato representa aquilo que existe e a Potência o vir a ser de cada coisa. Como exemplo de Ato ele recorre a reflexão sobre a semente de uma árvore que contém o vir a ser e que se desenvolve através do movimento de extração da seiva necessária à realização do brotar e, portanto através desse processo faz surgir aquela vida que parecia inexistente.
A natureza não duvida de si mesma, não sofre das inseguranças e das terríveis desesperanças que o ser humano pode carregar, por isso ela sob o constante efeito dessa inabalável força sempre faz emergir as radiantes primaveras...
Quando encontramos algo quebrado, esta condição do objeto representa a realidade tal como está. Semelhante a quando se quebra um aspecto da realidade de uma pessoa... Mas que só permanece aprisionada na condição comprometida se nenhuma atitude de reformulação for despertada. 
O potencial de modificação se encontra resistente e potente no interior da realidade degradada, como uma semente residente numa fruta passada. Esta semente salta ao futuro se a pessoa se responsabilizar em submeter a realidade deficitária ao movimento de restauração... 
Em recente entrevista ao jornal O Globo o neurologista Leonard Mlodinow afirmou que a ciência vem mostrando que aquele que se depara e se enraíza na visão depreciada de sua realidade sem qualquer crença de continuidade possível irá se configurar no rol dos deprimidos e que o cérebro irá demonstrar isso. E, afirma “Porque a vida é dura e, mesmo assim, seguimos em frente. Temos que acreditar nos nossos talentos, nas nossas capacidades para ultrapassar todos os obstáculos que irão surgir inevitavelmente.”.
Quando olhamos um carro amassado por um acidente, a ruína pode ser transformada pela potência da decisão e do movimento de reconstrução. Acidentes de percurso amassam nossos sonhos, ou nossas relações afetivas, ou mesmo nossa saúde. Olhar para estas condições é olhar o Ato Aristotélico de constatar uma realidade comprometida. Será a abertura para a percepção de que pode ter-se uma nova realidade construída a partir da atual é que fará despertar a força em uso... A partir dessa alavanca de percepção e decisão que tudo na vida humana pode ser transformado.
Há um filme da década de 90 que se chamou O Pescador de Ilusões – The Fisher King – que discorre sobre a redenção de dois homens.
Na história o ator Robin Williams interpreta Parry um ex-professor de história medieval que vive em um mundo da própria imaginação a fim de isolar-se de uma tragédia do passado.
Quantas vezes percebo pessoas que se tornam um pouco sideradas para fugirem de um aspecto da realidade que não aceitam e que por isso se esmagaram na pedra pela falta de potência em se perspectivar com transformação para o futuro.
Há também no filme o ator Jeff Bridges que interpreta Jack Luca que é um homem que sempre conseguiu olhar a vida apenas a partir do topo do sucesso, mas a arrogância como um radialista conhecido desencadeia um incidente que o leva a uma queda vertiginosa na carreira. A partir daí sem dinheiro e sem perspectivas se vê arrancado do seu sentimento ilusório de imunidade diante das tragédias.
Quantos pensam que o poder os exclui das perdas, das dores e dos fracassos afetivos. Quantos se tornam displicentes com o que fazem se calcando numa ilusão de imunidade permanente...
Quantos Jack´s se destroem pela displicência em tomar conta e preservar a lucidez quanto à efemeridade das realidades...
O encontro de um com o outro pelas ruas e a amizade que constroem tecem uma mistura de humanização e cada um começa a absorver do outro o que falta em si para os recomeços. Jack encontra a ternura e a sensibilidade de Parry e este a resistência de Jack...
Esse filme nos fala sobre a construção de identidades novas através dos encontros de reciprocidade, de amizade e cumplicidade.
Também sobre o tema recomeços vi recentemente o filme Os Belos Dias, uma produção francesa de 2013.
A trama se desenvolve sob a história de Caroline, interpretada por Fanny Ardant, que quando se aposenta não sabe como se perspectivar diante da nova realidade. Depara-se com o “não-ser” que significa estar destituída da habilidade de se sustentar numa realidade.
Quantas vezes uma pessoa se sente distanciada das visões de continuidade...
Quantas vezes uma pessoa na vida acha que a saída inexiste...
Caroline no esvaziamento de uma fase começa a percorrer caminhos e descaminhos até recuperar a percepção do que era essencial a ela e com isso resgatar a possibilidade de desenvolver com calma a capacidade de se sustentar nas escolhas realizadas.
Há sempre uma semente de recomeço em cada realidade.
A vida em ruína é como um apartamento que você visita para comprar... Há que se olhar o potencial do possível.
A Casa Cor reflete bem através das exibições dos ambientes estruturados em tempos recordes, como o projeto do arquiteto Maurício Nóbrega, deste ano, de uma cobertura construída em 30 dias, que há possibilidades de construções do belo e do confortável sobre o esqueleto arquitetônico, quando é lógico se assume sem trégua a intenção de potencializar mudanças...
O Filme francês Os Belos Dias tem como título original O Pacto que retrata perfeitamente o teor daquela história de recomeços... Pois nos apresenta que qualquer acordo com as mudanças se realiza através de um pacto que se estabelece consigo... O pacto do bom futuro...
O pacto de criar os conteúdos do futuro através do Devir a Ser...
O rapaz corredor de algum modo estabeleceu um pacto de se reconstruir para os Belos Dias.
Se foi dada uma oportunidade, ele com certeza a pegou com mãos aristotélicas e se apropriou desse modo do contato com a potência... Saiu da miséria das mentes que são destituídas das riquezas fundamentais. Ao invés de ser pedinte se tornou fornecedor da imagem dos bons possíveis.
Resgatou, se reergueu e voltou ao mundo da potência dizendo a mim e a todos que desejam ouvir que existe sim uma Existência sempre em nós a espera de ser realizada...
Qual ambiente você precisa redecorar na sua existência?
Recorra à mão Aristotélica e a realize.
Mãos a Obra! Crie o seu mundo com potência.
Como escreveu Drummond numa crônica chamada Música no Táxi: Ninguém precisa ser grande em nada, uma vez que cultive alguma coisa bonita na vida.
Para mim, uma coisa bonita a ser cultivada?
Entre tantas, ponho no topo das minhas prioridades: 
Procurar Saber Existir com Sensibilidade e Potência.
E, você?

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

domingo, 13 de outubro de 2013

O Mundo: Exposição Existencial

Outro dia um amigo me enviou uma crônica do Nelson Motta, e o respondi através de uns comentários a respeito. Recebi como retorno este dizer: “O engraçado é que quando recebo comentários cada um responde de uma forma pessoal. Todos querem dizer alguma coisa, mas a forma como comentam está sempre ligada a sua área de atuação. Deu para entender?”.
Além de compreender o sentimento que ele teve a respeito, me levou a pensar que a minha resposta de fato estava sob a ótica psicanalítica.
Pensei também que através da psicanálise podemos pensar todas as formas de narrativas.
Pode-se através dela refletir a política, as formas de governo, a necessidade de líderes, pode-se refletir os filmes, os quadros, as obras contidas numa exposição, as letras de música... Pode-se olhar o mundo com compreensão. 
O pensar psicanalítico me forneceu grandes percepções e trouxe um continuo ineditismo diferenciado sobre o que vivo, o que sinto, sobre o que fazem ou o que se faz. Ampliou minhas perspectivas e definiu minhas grandes mudanças de destinações.
Foi com esse olhar que fui ver a exposição no CCBB-Rio Yayoi Kusama-Obsessão Infinita.
Kusama é considerada uma das maiores artistas pop japonesas. A princesa das bolinhas como é chamada, transpõe para telas, roupas, esculturas e até para corpos nus as formas e as cores psicodélicas que enxerga nas alucinações que ela é acometida.
Kusama sofre de alucinações desde a infância. Nasceu em Matsumoto no Japão em uma família de classe média tradicional e segundo ela, bastante repressora. Desde cedo os transtornos mentais dela se traduziam em arte, mas a mãe destruía os desenhos da filha...
Na entrevista concedida para esta exposição no Brasil, hoje aos 84 anos afirmou: “Por sorte quando eu era muito jovem fui a um psiquiatra que entendia de arte. Desde então eu luto contra a minha doença, embora no meu caso, a cura estivesse em criar a arte baseada na minha doença. Desenvolver minha criatividade foi a minha cura.”
A criação de Kusama a ajudou a canalizar as ideias e manter-se viva. Ela chegou a Nova York em 1957 e lá entrou em contato com artistas como Andy Warhol. Hoje vive o auge da fama internacional e figura como a terceira mulher que mais ganhou dinheiro com o trabalho artístico.
O que seria dela se os desenhos deixassem de ser estimulados e fossem destruídos como a mãe o fazia?
A expressão pela arte ajudou-a...
Diante das dores inexoráveis da vida, ela nos ensina que nos mantemos viáveis através da criação. Criar é uma forma de segurar a pulsão de vida, de exercer a permanência na existência. A arte limitou a loucura que para ela é infinita, mas a segurou e a propiciou em manter-se numa direção e num propósito. 
O que nos segura na existência apesar por vezes das dores, dos destinos delirantes do real? A criação.
O nada a fazer, faz o nada. Concebe o Nada Ser.
Essa ideia sempre fundamentou minha narrativa interior diante dos meus momentos e ela fundamenta a minha fala profissional.
Precisamos obrar com as mãos, pois quem põe criatividade nelas põe sob controle a si mesmo...
Sentir controle sobre tudo é impossível, mas sobre si é absolutamente aconselhável e, portanto razoável.
A arte de Yayoi Kusama ganha os olhos de compreensão. Um significante que fala para quem souber ver sobre a mensagem do significado da sobrevivência apesar das limitações que recai sobre cada um de nós.
Na crônica para o jornal O Globo da edição de 12 de outubro, Paulo Nogueira Batista Jr escreveu: “O que é ser artista? É sentir como conteúdo o que os não artistas chamam de “forma”... E Paulo prossegue: “Nietzsche deixou também uma das mais belas declarações de amor à musica, que pode ser estendida as artes em geral: “ Sem a música, a vida seria um erro, um exílio, um cansaço.”...para muitos de nós, inclusive não artistas a arte é realmente uma necessidade vital. E, representa no fundo como disse Fernando Pessoa, uma confissão de que a vida não basta... Mais do que isto, a arte pode ser uma verdadeira comoção na vida, e conclui... Ela tem o poder de conferir aura e colorido...”
Como afirmou José Castello todos lutamos contra um excesso de mundo que nos sacode.
Cabe a cada um criar uma narrativa pessoal para se orientar no percurso da vida, no cotidiano dela, em cada ontem para o amanhã e como afirmou Stefan Zweig: “Para ir atravessando esse impenetrável hoje.”.
Para qualquer continuidade há que se depositar confiança na ideia que vencer esta longe de apagar, ou erradicar as sensações de agitações internas que cada um carrega, mas é catalisar essa força interna na forma de signos do fazer algo com imersão e profundidade. 
Muitos fazem coisas, mas sem foco, sem entrega e sem vínculo e mesmo sem atribuírem sentido existencial ao que fazem.
Fazem sofrendo ao invés de fazerem crescendo.
Fazer sabendo o porquê, o para que... Fazer para dar prosseguimento. Fazer com lucidez da razão... Fazer com atribuição de esperança.
Na ópera Turandot de Puccini, há um enigma que diz: “Quem é o fantasma que nasce à noite e morre ao amanhecer?”- Este enigma proposto pela princesa Turandot servia para afastar pretendentes, já que ela repudiava a ideia do casar. Um príncipe desconhecido acertou: “O fantasma é a esperança.”.
Nessa ópera a esperança era um fantasma que não sobrevivia a luz da razão e, portanto perdia potência.
Para mim todos aqueles que ultrapassam barreiras funcionam como Alentadores da Existência, que mesmo diante das crueldades, injustiças e sustos do destino preservam a esperança sob a luz da pulsão de vida, sob os abandonos das desistências. 
A idolatria ao sofrimento rouba a dignidade, empobrece a arte existencial.
Cada um fala sobre o viver sob uma ótica pessoal ou como o meu amigo me escreveu, sob o campo próprio de atuação...
Nietzsche pensava a existência e deixou o legado para que pensássemos a nossa, Freud nos narrou a vida do inconsciente e nos orientou a se sustentar nas opções do viver, Yayoi vive através das formas artísticas de seus delírios e nos fala da arte de viver, os compositores letram sentimentos e melodias, os médicos obram saúde, os engenheiros desenham formas para se viver, o ator encarna vidas sobre vidas, os chefes de cozinha fazem a arte de criar sabores para sensualizar a vida, os voluntários humanistas dedicam a existência para viabilizar o viver da humanidade, os pais responsáveis obram através dos filhos o amanhã possível e eu falo o que sei e de como sinto os modos da vida...
E, você?
O mundo se mantém mais interessante quando as pessoas obram com interesse.
O mundo é um contínuo vernissage de nossas expressões...
O que você expõe em sua galeria existencial?

Imagens:
Catálogo Mary Design,
obras de Yayoi Kusama e cena de Turandot.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Incêndios na Alma

Fui assistir no Teatro Poeira a peça “Incêndios” com Marieta Severo que é a protagonista numa montagem excepcional de Aderbal Freire Filho.
A peça, como a própria sinopse define, pode, de fato, ser considerada uma tragédia épica contemporânea. O texto que já encontrou montagens teatrais no mundo inteiro com muitíssimo sucesso, com uma versão cinematográfica que obteve indicação ao Oscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, é considerado por diversos estudiosos do teatro como um dos mais importantes escritos devido a capacidade de transportar quem assiste a diversos climas que vão desde as reflexões filosóficas até as mais brutais e catárticas atitudes.
Conforme o dramaturgo libanês-canadense Wajdi Mouawad, primeiro a montar este texto, afirmou: “Incêndios não é propriamente uma peça sobre a guerra é, sim, uma peça sobre promessas... sobre tentativas desesperadas de consolo, sobre maneiras de se permanecer humano num contexto desumano”.
A história passa por muitos aspectos.
Contar uma história como afirmou o Mouawad, “Talvez nos obrigue a escolher um início. Talvez o início da peça possa ser marcado pela morte de uma mulher e ela será em breve enterrada e toda a trama se abre a partir dos últimos desejos endereçados a Jeanne e Simon, seus filhos gêmeos”.
Nas linhas do testamento estão os pedidos para que encontrassem o pai deles e o irmão que não conheciam e, ao encontra-los a filha entregasse a carta ao pai e o filho uma outra ao irmão... A partir daí a busca desenrolará todo o novelo dramático da vida de Nawal.
Através dos olhos investigadores dos jovens gêmeos, descobrimos o início do incêndio no destino de Nawal, quando ainda adolescente se vê obrigada pela mãe a abandonar o amor e passar toda a gravidez escondida em casa para quando a criança nascesse fosse entregue ao destino sem mãos acolhedoras.
Nesse momento brutal da personagem de perda sem mortes, mas por interdições diz “Enfiei uma faca na garganta da juventude”.
Nesse momento Nawal perdeu a inocência da infância... Há sempre um momento na vida de cada um de nós que perdemos a inocência da infância pela primeira vez...
Para não se perder nesses momentos de ingressão ao olhar mais árido da vida, devemos estar atentos a reconstrução de sonhos e destinações.
A nova destinação no percurso de Nawal após esta tragédia imposta pelo moralismo é calcada pela obstinação por aprender a resistir e dar seguimento a própria vida através também do propósito de reencontrar esse filho que a obrigaram a abandoná-lo.
Hoje me coloquei estimulado pela peça a pensar sobre o curso que iniciei “Capacidade de Amar- Formas” em que na primeira aula falo sobre a constituição inicial de nosso psiquismo. Para compreendê-la devemos ir até a raiz da nossa formação, na vida intrauterina. Somos no princípio psíquico um nada que se transforma em criatura e passamos nove meses ali naquele dentro paradisíaco sem “incêndios”, numa situação de aconchego e sem esperas, com tudo que precisamos.
Nascer é antes de tudo perder este paraíso, é perder essa sensação de amparo e aconchego que se chama em psicanálise o “trauma do nascimento”.
Nascemos para uma vida plena de riscos, mas igualmente plena de possibilidades internas de se estabelecer modos de prosseguir nela.
Nascemos com uma falta que se instala e todos os nossos movimentos na vida são formas diversas de reeditar um pouco o acolhimento, o aconchego a aceitação e a inserção em um núcleo através dos encontros que podemos realizar.
A nossa falta inicial do que já um dia então tivemos sem exceção, pois todos tiveram esta realidade na vida intrauterina, deve ser compreendida como a mola percursora de estímulos para buscar o encontro com a sensação de acolhimento. Uma busca que nos põe em busca, que nos propicia um sentido e uma direção na existência. 
Portanto quando perdemos por um “incêndio” do destino algo importante para nós, devemos reeditar a força implícita em nosso psiquismo de busca e deixar de lado a vontade de ser buscado... A atitude tem que ser conjugada no verbo na primeira pessoa do singular no “Eu busco”. Se o Antigo Testamento fala que a vida começa pelo verbo, devemos compreender que também para recomeça-la devemos nos inserir no verbo que nos fala de um Eu, na imagem e semelhança da força criadora e mantenedora. 
A desamparada Nawal quando foi obrigada a romper e desistir do rapaz que ela amava e ainda entregar o próprio filho recém-nascido, para conseguir prosseguir na realidade que a acometia, se agarrou ao pedido da avó: “Saia desta cidade. Vá embora. Aprenda a ler, escrever e a pensar”.
Assim Nawal habitou seus vazios com os pedidos internalizados da avó e constituiu um propósito para seguir... Conduziu a si através da comunhão do pedido de alguém. Internalizou um propósito que dava sentido a continuidade. 
Tomei este momento como uma lição de vida definitiva e me reconheci em muitos estágios de recomeços em minha vida.
Ao se perder alguém ou tudo, deve-se colocar uma voz internalizada de presença afetiva orientadora de continuidade, deve-se também aprender a ler os novos caminhos para que se constituam as escritas da direção a seguir e através destas etapas possa então pensar em viver. 
Após um tempo Nawal se transforma na mulher que canta, ao perder de vista a amiga e companheira da busca que cantava. Colocou como disse: “A voz da outra em si” e se fez mais uma vez na solidão ser internamente acompanhada para suportar a sucessão de “incêndios” dramáticos que ocorreram na vida. Tentou apaga-los sempre com o suor da luta em prosseguir.
Pensei ali em meio aquela densidade do texto que as pessoas normalmente têm muito medo dos acontecimentos, mas deveriam prestar atenção em como estão acontecendo diante de si mesmo e em si. 
É uma peça para se pensar...
Pensei nas pessoas que incendeiam os momentos e as oportunidades de recomeços.
Pensei nas pessoas que incendeiam as manhãs, incendeiam as viagens cotidianas...
Pensei também nas que incendeiam as amizades e os bons diálogos...
Há outras que incendeiam a saúde...
Há aquelas que incendeiam a gratidão...
Há as que incendeiam tudo ao redor...
Têm pessoas que não gostam de ver dramas teatrais e não os assistem, mas fazem os incêndios nas próprias realidades sem a construção das portas de emergência...
Você já parou para pensar?
Há sempre uma saída.
Pode não ser a habitual, mas há sempre uma saída de emergência em si a espera de salvar...
Veja bem se já está na hora de apagar algum incêndio...
Como nos rituais de enterro mostrado na peça, joga-se balde de água nos corpos ardidos e mortos.
No corpo subjetivo em chamas que queimam as boas visões das atitudes inteligentes, o que fazer?... Jogue água.
Incêndios?
Apague-os!
Se não conseguir recorra ao corpo de bombeiro para ajudar...
“Da alma em fogo, me sai da vista um rio.
Agora espero, agora desconfio.
Agora desvario, agora acerto.”
Al Berto

Preste Atenção!
Saia das gaiolas que aprisionam e incendeiam o prazer de viver.


domingo, 29 de setembro de 2013

Mal, Bom e Bem

Ouvi na TV Globo, no domingo, uma declaração da Suzana Vieira na qual afirma estar impressionada com a agressividade das pessoas. Segundo ela, recebeu inúmeros pedidos, da Classe A a Z, para dar uma surra na amante do marido dela na novela. Prosseguiu a declaração afirmando achar que as pessoas estão desmedidas.
Cheguei a parar diante da tela para ouvi-la, pois coincidia com o que sinto na vida e que era justamente o tema da crônica desta semana...
Suscitado pelo que tenho visto de intolerância, falta de zelo pelo outro, pela perversidade e agressividade instalada nas atitudes, comecei a pensar que somos como uma cidade. Nela encontramos lados bonitos, agradáveis, calmos, mas temos áreas de risco onde a violência é latente e sempre pronta para surgir.
Na crônica de José Castello, do caderno Prosa, do Jornal O Globo de sábado, esta semana ele fala da “Visita a Coxia” com as linhas letradas nessa reflexão: “O que se esconde detrás do humano? Que lugar é este que está lá, mas não está lá?... Uma das namoradas de Gustavo Luna, protagonista do livro “O frio aqui fora” de Flavio Cafiero, compara essa região inconsciente, que nos inclui sem que percebamos isso, com a coxia teatral e Castello prossegue: “Coxia ou bastidor é aquele lugar situado dentro do espaço teatral, mas que está ali e ao mesmo tempo fora de cena. É o que está ali e não se vê”.
Esta coxia citada por Castello pode ser vista em nossa estrutura psíquica como uma instância denominada isso, que está ali, mas não se vê. Esse isso mesmo invisível pode ser percebido nas irrupções que traz a nossa superfície os sofrimentos, as raivas recalcadas, as dores exiladas em si... São os caminhos pulsionais percorridos da coxia ao palco, ou do sujeito do inconsciente ao corpo nosso de cada dia... Uma pulsão que irrompe e que traz consigo vontades sob diversas formas que se não forem organizadas e elaboradas degradam a nossa existência. 
Quantas vontades de matar; enforcar; vingar; prejudicar; morrer; trair e sumir surgem em nossas peles...
Mateus Solano, que desempenha o grande vilão da novela Amor à Vida, declarou para a revista "RG" que "a maldade é tudo aquilo que a gente quer fazer e sabe que não pode. Às vezes, a gente quer matar a mãe, quer matar o pai - claro que a gente não quer que eles morram, a gente fala isso, bota pra fora." E acrescento, ao fazer essa saída da vontade, nomeamos sem transformar, é lógico, intenção em ação. Eis aí a normalidade.
Fui assistir ao filme "A Família" do francês Luc Besson com Robert De Niro e Michelle Pfeiffer, que formam um casal mafioso com dois filhos adolescentes e que passam a vida em fuga depois que o patriarca, personificado por De Niro, dedurou uma dúzia de irmãos da máfia.
A história deste filme, um gangster satírico, começa com a chegada deles num vilarejo da Normandia, em mais uma tentativa de se diluírem como habitantes comuns... No entanto carregam o hábito de não suportarem qualquer ironia, destrato ou mesmo desaforo... Eles sempre resolvem a questão com atitudes bem mafiosas... Irrupções de surras, explosões, decepações de membros... Qualquer coisa que façam com eles é semelhante a “cutucar a onça com vara curta”... O enredo se desdobra em uma série de situações que nos envolvem e leva a plateia a começar a adorar certas “maldadezinhas”... O filme nos leva de forma sublimada a realizar nossos ladinhos mafiosos, que ficam adormecidos nas nossas coxias sem poderem invadir as cenas dos nossos cotidianos.
Os estímulos vindos da tela do cinema suscitam nossos lados mafiosos de algum modo.
Toda casa tem seu lado da frente mais bonito, mas também os fundos como nós também os temos. Olhar as coxias ou os bastidores de si é reconhecer entre outras coisas a vontade de envenenar, de trair para machucar, de difamar, de agredir que podem às vezes parecer boas vontades. No entanto é importante saber que nem tudo que é bom nos faz bem...
Nessa sociedade atual há uma agressividade de fato subjetiva que deve ser percebida e invalidada por cada um de nós.
Nem tudo que parece bom fazer e dizer trará o bem. O bem é a finalidade que devemos sempre considerar para refletir se o bom é de fato válido.
Podemos refletir uma série de questões: Beber é bom, mas muito não faz bem; comer é bom, mas sem controle não faz bem; reclamar é bom, mas muito não faz bem... São muitas considerações que podemos realizar dentro dessas premissas.
Uma avaliação da presença das virtudes em si é importante para cada um de nós.
Pode até parecer à primeira vista muito bom agir misturados às ideias mafiosas do nosso isso, mas se refletirmos o final do filme percebemos que “A Família” acaba em lugar algum. Eles, os membros dessa família, se tornam eternos fugitivos, até de si, pois sempre fogem das próprias consequências...
Mais fácil seria lidar com as coxias e criar raízes no mundo mais equilibrado.
Agressividade suscita agressividade, ofensividade suscita semelhança. Os contextos sugerem e suscitam... Portanto é bom prestar atenção ao lado mafioso de si.
Fui assistir no Teatro Clara Nunes, o espetáculo “Para sempre Abba” o musical embalado por hits do grupo dos anos 70. Ao final todos de pé dançando e cantando... 
As músicas e as vozes inspiram e nos levam a soltar o melhor de cada um de nós...
Um bom lema na vida? Eu recorro sempre... O Bom que faz bem...
Em tempo: adorei o filme “A Família”, pois lá de modo sublimado deixei meu isso viver algumas horinhas mafiosas. Depois para colocar tudo no lugar do bom que faz bem eu me abri ao Abba...
Quem canta os males espanta...
Preste atenção:
Os bons estímulos nos fazem bem.
Bons amigos fazem bem.
Bons programas fazem bem.
Bons aprendizados fazem bem.
Igualmente faz muito bem se bom consigo e com o mundo.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Curso Capacidade de Amar

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Inicia semana que vem o Curso do Prof. Manoel Thomaz Carneiro: "Capacidade de Amar".

Turma 3ª feira das 14:30 h às 16:30 h. (início 01/10/13 - término 19/11/13)
Turma 4ª feira Turno da Tarde das 14:30 h às 16:30 h. (início 02/10/13 - término 20/11/13)
Turma 4ª feira Turno da Noite das 19:30 h às 21:10 h. (início 02/10/13 - término 20/11/13)

Informações e Reservas com ILANA (21) 9983-5751

Local: Centro de Eventos do Ed. Leblon Corporate
Rua Dias Ferreira, 190 - Leblon.

domingo, 22 de setembro de 2013

Limpar o Peixe

Faço os meus oito Km de corrida na orla de Copacabana, onde aos domingos tem sempre alguma atividade ou manifestação. No último, logo no início me deparei com a “Caminhada da Superação” e nela participavam pessoas que haviam sofrido algum tipo de acidente ou que nasceram com alguma lesão. Manifestavam na busca de um olhar atento e legítimo das autoridades sobre legalidades e, portanto conquistas de direitos. Havia um jovem rapper que falava que depois do acidente que o levou a cadeira de rodas, encontrou profundo significado na vida. Disse ter descoberto a importância do outro e que a partir de então passou a se sentir imerso em um destino precioso, mais interessante do que antes quando tinha total mobilidade.
Sem interromper a minha corrida, esta fração do que ouvi do depoimento me levou a pensar sobre o filme “Eu, Anna” baseado no livro homônimo escrito pela psicanalista Elsa Lewin.
Nele, Anna Willes, interpretada pela atriz Charlotte Rampling, é uma mulher divorciada que mora num apartamento de sala e quarto com a filha e a neta Chiara.
Anna sentindo-se perdida e desamparada depois de um fim de um casamento de quase trinta anos e sem ter um lugar para verbalizar e, portanto nomear o sofrimento, passa os dias num movimento de vida solitário, carregado de um “choro para dentro” tão comum na vida de tantas Annas, Jorges, Maurícios e Andrés. Ela nessa condição de solidão destituída da possibilidade do dizer e sem pontes para se conectar com o mundo exterior começa a desconectar-se parcialmente da realidade e passa a viver de forma siderada, como se fosse uma sonâmbula da existência.
Repete com este “ensimesmamento” doloroso o movimento sonolento de seu cotidiano.
Um dia, imersa nesta ausência de foco, leva sua neta ao parque e a esquece numa calçada e Chiara acaba por encontrar a morte ao sair sozinha do carrinho de bebe e ser atropelada... Anna é então abandonada mais uma vez agora pela filha que fica no choque impossibilitada de conviver com a mãe. 
Quantas e quantos choram para dentro, num movimento solitário de desconexão com os vínculos que os ligariam a vida.
Se Anna não pôde, não sabia e não foi orientada a chorar para fora, ou seja, partilhar com alguém a dor, ficou como afirmou o psicanalista Lacan com “a representação do sofrimento isolada no inconsciente e portanto impedida de distribuir a descarga de tensão”.
Tudo então permanece dentro e se torna uma bola de fogo enlouquecida.
Quem já não sentiu um sofrimento arder por dentro?
A tensão interna necessita se socializar e encontrar uma saída acolhedora e saudável.
Necessitamos para não entrarmos em falência emocional encontrar o espaço de simbolização e nomeação dos sentimentos bons e ruins.
Mais adiante ainda na minha corrida de domingo na altura do Posto 6, estava instalado o 3º Festival de Gastronomia do Mar e ouvi o chefe com um sotaque francês dizer ao microfone algo assim: “Vou agórra enshinar a limpar um liguaaado. Son pocos os que sabiem fazê-lo e porrr iiiso son igualmente pocos que conseguem  potenncializarrr o sabor deste peisse”
Pensei na hora que peixe pode simbolizar a vida e que se deixarmos de saber limpa-la, deixamos também de potencializarmos o sabor dela.
Vida não muito bem preparada ganha sabor insosso.
Vida sem boa limpeza ganha sabor amargo.
Alguns condenam a arte de ensinar a preparar a receita da vida, como se apenas por instinto todos pudessem sabê-lo.
Concordo que todos podem, mas alguns permanecem como Anna comendo apenas os prantos, nos desenganos, sem saber retirar as partes amargas. Ela no desespero se encurralou na solidão emocional até chegar ao estado limítrofe e se posicionar no beiral da sacada de um apartamento pronta para jogar fora as chances de reviver. 
É salva pelas mãos fortes e boas do policial investigador que soube olhar o que parecia impossível perceber... Soube que aquele beiral era o seu pedido de socorro supremo.
Aconchegada a cabeça no ombro acolhedor deste homem, as lágrimas correram para fora... e assim a alma se colocou no recomeço.
O Chefe do Posto 6 prepara o peixe mais saboroso. O rapper que discursava na caminhada da superação em sua cadeira de rodas falava da própria técnica de se limpar dos acontecimentos dolorosos. Falavam os dois chefes a todos que estavam dispostos a aprender e sobretudo a apreender sobre o “Limpar o Peixe de Cada Dia”.
Há um pensamento freudiano que sempre me orientou: “O amor é marcado pela compulsão. Amar é invariavelmente amar pela segunda vez”.
O que diz?
O amor fica a espera de amar de novo. O amor adora encontrar algo para amar. O amor é guloso. Anseia por um novo encontro e assim permanecer vivo.
Por isso quando algo interrompe uma relação de amor que temos com alguém, com algo temos que buscar olhos de chefe que limpem o peixe e descubra algo que nos leve a amar a vida pela segunda vez.
O milagre da multiplicação dos peixes é assim: um peixe nosso de cada dia...
Anna amou a vida pela segunda vez, através do ombro de um chefe do acolhimento...
Por que deixar passar o festival?
Inspirado nesse festival da gastronomia do mar ouso criar uma receita... Uma vez que minha especialidade é “gastronomia existencial”, para comemorar o 25º ano do Grupo de Estudos Pensar, que idealizei e ministro as aulas, me transformo em um “chefe de cozinha" carioca que se inspira nas receitas freudianas...
O Peixe Nosso de Cada Dia.
Retire as escamas do seu olhar.
Limpe a cabeça dos ressentimentos. 
Salpique com Perdão ao Destino.
Faça um caldo com lágrimas de alívio e preciosidade de novos propósitos.
Polvilhe com desejo de viver. 
Deixe de molho no amor.
Ponha para assar algumas horas com o calor de suas esperanças em brasas.

Depois de pronto? Sirva-se.
Ótimo para fortalecer e comemorar a ressurreição.

Ps. Se amou, pode amá-lo pela segunda vez, pois é livre de caloria, sem riscos de ganhar peso. Ao contrário, fortalece e propicia a leveza no viver...