terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A Neve que Cobre




Ao chegar a Paris, soube logo de uma história com uma conhecida distante que me deixou estarrecido...
Tina, assim vou chama-la, encontrou em uma de suas viagens ao Brasil, um belo homem que a deixou completamente apaixonada... Como sabemos toda paixão é mobilizadora, pois nos retira de nossa vida cotidiana para nos orientar na nova miragem... Sim miragem, pois a paixão também nos deixa com as percepções embaçadas... Com a serotonina e a oxitocina, que é o hormônio do amor, em níveis elevadíssimos decorrentes deste nirvana periódico, ela se organizou para ir sucessivas vezes ao Rio, até para comemorar o seu redondo aniversário de 50 anos. Aliás, festejado sem crise alguma, pois se sentia debutante da vida e do amor... O “Carioca Charmoso” era só malícia e delícia...
De volta, Tina queria mostrar esta cidade para viver as cenas românticas do filme “Meia Noite em Paris” de Woody Allen... E assim tudo foi organizado...  Para recebê-lo, pintou o apartamento, comprou entradas para exposições, espetáculos, organizou uma prejudicial parada no trabalho, uma vez que ela é freelance. Chegado o grande dia, lá foi ela espera-lo no aeroporto Charles de Gaulle na hora marcada... Falaram-se até o último minuto antes do embarque... Assim Tina passou a noite quase em claro a espera do pedaço de Sol chegar neste final de outono.
Aviso no terminal 2F... Avião Pousado... Mais uma hora... Mais duas... Mais três... Mais quatro... Todos os passageiros já tinham saído e o Sol de Tina não havia surgido.
O que aconteceu? Perguntamo-nos do mesmo modo que ela se perguntava... Várias hipóteses: algum problema na polícia; se perdeu no imenso aeroporto; passou mal durante o voo. Desesperada tentou falar com os funcionários de vários setores e ninguém sabia orientá-la. Até que se lembrou de um conhecido que era comandante de bordo da companhia aérea que ele tinha embarcado. Checou a lista e nada... O nome? Talvez outro sobrenome? 
Todas as hipóteses esgotadas e o gradual confronto com a chocante realidade. Ele simulou tudo! Não havia passagem alguma, não havia embarque, não havia saudades. Não haveria encontro... Em estado de choque, foi colocada num taxi por um sensível funcionário...
Tina chegou em casa só, apenas com a paixão, todos os sonhos, todas as entradas, todos os passeios e com todas as horas de espera. O amanhecer a partir daquele dia seria sem o sol que se tornou cruelmente desaparecido.
Lembro-me dela no Rio, e de sua contagiante alegria, mas quando conheci o “Charmant Chevalier” alguma coisa me passou de modo subjetivo... Os olhos do amado não brilhavam como os dela. Havia algo. Cheguei a comentar, mas fui censurado e também me censurei, pois afinal...
Ao me contarem este triste epílogo, me foram logo lançadas as perguntas: “Como alguém pode ser capaz de fazer isso?” “Como um ser que respira, beija e vive pode ser tão frio, tão indiferente à dor que causa ao outro?” Afinal se trata de um homem sério, bem sucedido!
As indagações e as exclamações revelam o quanto de alguma forma todos foram traídos, pois vivemos um pouco de modo sublimado estes alheios intensos encontros apaixonados... Eu estava chocado e fui invadido em meus pensamentos pelas etapas de Tina para recebê-lo: no minucioso preparo, na ansiosa espera e na imensa decepção.
Pensei alto “As pessoas se enganam e por isso são enganadas”. 
Esta história me lembrou duma aula que dei este ano, que foi considerada pelas turmas uma das mais mobilizadoras. Comecei-a pela explicação sobre as três idades simultâneas que temos: “a cronológica”; “a física” que se cuidarmos hoje a medicina nos afirma que podemos apresentar uma constituição de quinze anos a menos que a cronológica e temos também a idade “emocional”. Esta última se divide em íntima; social e profissional.
Um publicitário de evidência e, portanto de sucesso tem a idade emocional/profissional para o trabalho bem madura, mas a sua idade íntima pode estar presa aos quinze anos, o que o levaria a ainda estar incapaz de criar na vida afetiva profundos vínculos.  Esta específica imaturidade é que tornou este “Carioca” incapaz de olhar o outro com humanidade e respeito. 
Muitos homens podem ter uma aparência segura com fala firme e voz grossa, mas no mundo subjetivo possuem corpos de uma meninice deslocada. Um verdadeiro menino atrevido, voluntarioso e explosivo.
Quantos? Muitos. Muitos mesmo.
O ser humano tem uma tendência a avaliar a maturidade global de uma pessoa pelo sucesso profissional e muitas vezes também pelo poder aquisitivo que em nada refletem o QE intimo e social. Ou seja, o quociente emocional.
Estas pessoas são capazes de viver desejos e paixões, mas ainda estão longe dos compromissos mais profundos. Intensidade não significa maturidade e nem mesmo qualidade.
Razões para apresentar esses comportamentos?
São inúmeras. Difícil relacionar numa crônica sem enfraquecer as visões.
Como afirmou Shakespeare: “Há mais mistérios entre o céu e a terra, do que toda a nossa vã filosofia”. 
Mas... Freud veio e iniciou de modo ímpar a revelação da linguagem do inconsciente, e com isto muitos mistérios foram desvendados. A partir da psicanálise podemos compreender que o “Carioca Charmoso” tem seus mistérios, mas podemos lançar algumas hipóteses ligadas às famosas razões edipianas.
- Ressentimento feminino deslocado
- Relação fusional excessiva com a mãe que não o permite ser fiel e terno nas relações afetivas.
De qualquer maneira é bom lembrar que explicar de modo algum significa inocentar.
Conclusão? O “Carioca Charmoso” se tornou o “Sol Poente” antes da chegada do “Meio Dia”, porque não tem maturidade psíquica para viver o amor sem causar danos.
A nossa lucidez está em saber isto. 
O trabalho possível de maturidade envolve primeiro o reconhecimento da própria inconstância nas relações e na inerente incapacidade de vivenciar as permanências. A partir daí poderá estabelecer um trato consigo, para em segunda etapa realizar as percepções de sentido que irão alavancar o desenvolvimento do psiquismo em direção a uma existência mais adulta e, portanto, mais apto a controlar sua dinâmica existencial.
O que é a vida adulta senão a capacidade de olhar o outro e sair da condição de absoluto narcisismo?
O que é a vida adulta senão a aptidão para ponderar os próprios instintos?
No entanto, o importante é saber que às vezes podemos ser vítima de alguns vilões do amor. Pode ser uma vilã... Pode ser um vilão.
O importante é também saber que o destino não irá proteger o ser humano dessas feridas, mas que temos capacidade de fazer bem com aquilo que nos fizeram Mal.
Afinal... E, Tina?
O que ela poderia fazer de melhor diante desta realidade?
O que fazer com a decepção, com a raiva, com a dor, com a inevitável revolta?
O que fazer?
Aceitar a dor... Encarar o inevitável.
Acima de tudo saber se conduzir na boa direção.
Precisaria aprender que a tristeza e a mágoa que sentia eram inevitáveis respostas emocionais ao acontecido. Eram emoções legítimas.
Ao invés de fazer dos ingressos de suas expectativas folhas mortas de um verão abreviado, teria que recorrer à vivência de uma impecável inteligência emocional. 
Se não pudermos mudar alguma história, temos que recorrer a incondicional liberdade que temos para modificarmos nosso futuro em relação a ela.
Soube que Tina se conduziu muito bem nesta história. Pegou a potência da raiva para reorganizar-se diante da situação.
Tentou falar algumas vezes com ele e jamais conseguiu...
Tina chamou um amigo para cada programa que havia organizado para sair com o Carioca nesta romântica Paris e ainda reuniu em casa todos para um jantar, onde utilizou quase tudo que havia comprado para acolher a sua paixão.
Ao final, me contaram, abriu uma garrafa de champanhe e pediu para que todos levantassem as taças... E?... Brindou a Sorte. Todos de olhos arregalados exclamaram assustados... Sorte de que?
“Mes Cheries!” Sorte... Meus queridos! Cheguei à conclusão que tive duas sortes que não apagam a minha dor. A Primeira? Percebi que vivi momentos inesquecíveis, por isso dói muito, pois é difícil renunciar a esta vontade louca do “quero mais”. A segunda? Sorte que acabou logo, antes que a presença dele ficasse impregnada aqui neste meu mundo.
Como não poderia fazer qualquer coisa em relação a ele, fez tudo que poderia em relação a si mesma.
Hoje pela manhã quando fui correr no Jardim do Luxemburgo, as folhas do outono estavam desaparecidas pela neve que caiu esta madrugada... Ao olhar pensei nesta crônica. Pensei que o verão de Tina se tornou folhas mortas, mas ela prosseguiu e cobriu com um manto de inteligência todos os sonhos amarelados... Cobriu de branco... Fez com o feio o bonito e com essa atitude se permitiu começar a renascer.
Tomou posse de si mesma...



26 comentários:

  1. Tomar posse de si mesmo é o maior presente que podemos nos dar ;-))

    Arrasou como sempre!!!

    Bjsssss,
    Marcela

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    1. Marcela
      Tomar posse de si mesma ...Deve ser o lema de nossas vidas.
      Um Beijo,
      Obrigado.
      Manoel

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  2. Que crônica maravilhosa Manoel. Um aprendizado para muitas situações da nossa vida.
    Obrigada sempre por todas as coisas maravilhosas e tão bem escritas que vc nos dá de presente.
    Feliz Natal e um Ano Novo com muita energia.
    Grande beijo.
    Gabriela Trybom

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    1. Gabriela
      Obrigado Mesmo.
      Este "Tomar Posse de Si Mesmmo"é o lema da vida Boa.
      OBrigado Um Feliz Natal e Um Novo Ano de muiiiita potencia,
      Bjs
      Manoel

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  3. Manoel,

    Viajei para outros tempos lendo a crônica...tempos nem tão distantes assim...num tempo que o calor da emoção foi mais forte que a voz do meu coração, da minha intuição porque de fato, a gente se engana...mas o importante é mesmo tomar posse de si mesma, renascer íntegra e tendo a certeza de que o sol irá nascer de novo e se porá todos os dias!ahh Manoel, vc sempre vai direto ao coração!Obrigada!!! bisous, Andréa J.

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    1. Andréa
      è fato que pelo menos uma vez na vida somos mordidos pel embaçamento dos sentidos...mas se soubermos sair... A lição Vira brinde de fim de ano
      TOMAR POSSE DE SI MESMO
      Bjs
      Manoel

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  4. Como sp sua crônica é embalsada em ensinamentos para que façamos de nossas vida uma VIDA BOA.
    Feliz Natal!
    Saudades !
    Verinha.

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    1. Verinha,
      Vida Boa Vida Festa
      E o Grande Brinde Tomar Posse de Si Mesmo..
      Beijosss Feliz Natal
      Manoel

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  5. Estou eu ca in New York e me deparo c/ estas folhas cobertas de neve...A sol desesperador onde estais, a brilhar mais lindo do que nunca? Despois da chuva de neve ele aparece, sempre belo a nos iradiar!!!
    bjo Ellie

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    1. Ellie
      O melhor é ter o Sol bem guardado dentro de nós...Sobretudo nesta época...Tina teve que invertar um em estado de emrgencia.
      Um Beijo
      Manoel

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  6. Queridíssimo, MANOEL
    Perdi...o fôlego....suspirei....diante de tudo q BRILHANTEMENTE vosmicê...escreveu...repassando..
    o GRANDE MOMENTO da TINA! Exatamente...nos moldes..
    VINICIUS...Afinal... MARAVILHOSO é a gente saber..sentir...DAR o q MELHOR temos....para quem
    AMAMOS!
    VIVENDO ...no SOL....na CHUVA...no MAR...no CÉU..
    com FLORES....com...NEVE...
    É VIDA para SER BRINDADA!
    Enfim...TOMAR POSSE SE SI MESMO num GOLE SÓ!
    AMANDO! AMANDO! AMANDO! Passado...Presente..Futuro!
    AMEI!
    ..pedalando...BICICLETA FLORIDA!
    ..espiando... BANQUINHO..COBERTO DE NEVE!
    PARIS! PARIS! PARIS!
    carinhosos beijos
    JACINTHA

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    1. Jacintha A que sabe pedalar...A que sabe compor...A que sabe muito bem saber fazer com grandes saltos, pois aprendeu a tomar posse de si mesma.
      um beijo,
      Manoel

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  7. jcmurruga@oi,com,br12 de dezembro de 2012 12:22

    Fala ai manoel;esta muito frio por ai? Aqui no rio esta um calorâo! Estão todos com muita saudades de ti! Abraçâo do João Piloto da D. alice Feliz natal e um ano novo maravilhoso!!! Fik com Deus!!!

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    1. João..,
      Obrigado.
      Feliz Ano Novo para você também...
      Aqui muito frio...mas prefiro ao calor.
      Um abração e até 2013
      Manoel

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  8. Então, Manoel querido, este será o brinde: Tomar posse de si mesmo! Salve 2013!
    Grande beijo,
    Lilian

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  9. Lilian,
    Tomar Posse de Si mesmo...Uma grande ideia como projeto de Ano Novo.
    Um beijo,
    Manoel

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  10. Suas crônicas são de uma total sabedoria, o que não me espanta! Sei de sua capacidade desde o início de seu curso há 24 anos! Me orgulho muito de você e de ser sua mãe! Saudades mil! Até a próxima semana com muito amor e bençãos. Sua mãe Virgínia.

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  11. manoel querido
    nossa que cronica fantastica,como tenho aprendido com vc
    feliz natal!!!!
    um bjo gde
    Regina

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    1. Regina
      Feliz NATAL !!! Obrigado...Tomar Posse de Si
      Mesmo. Eis o Grande Passo.
      Um Beijo,
      Manoel

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  12. Manoel, estou lendo e adorando os teus blogs. Ajuda a compensar as faltas das aulas das quarta-feiras. Un Natal muito feliz para voces e muitas lem,branças para o Braz.
    Com muito carinho Alice Kelson

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    1. Alice Que boa surpresa...
      Obrigado...Assim mesmo para que as reflexões possam continuar.
      Um Beijo
      Felicidades
      Manoel

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  13. Olá , excelente!!!
    Boas Festas,
    Katia Salén

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    1. Kátia
      Obrigado de coração.
      Um Beijo
      Manoel

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  14. querido Manoel
    que espetaculo de cronica,cada vez me enriquece mais
    feliz natal!!!!
    gde beijo
    Regina

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    1. Regina
      Obrigado
      Mais e mais reflexões para a construção da verdadeira Vida Boa.
      Um Beijo,
      Manoel

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  15. Manoel, posso brindar a vida, a sorte, o meu hoje, ontem e quem sabe, amanhã, nunca tive esse tipo de decepção, sera que é por jamais cair de "cabeça" em minhas relações? Não sei.
    A Você desejo Um NATAL muito Feliz e Abençoado. Beijos, Sônia

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