terça-feira, 6 de novembro de 2012

Vidas: Você Sabe Saboreá-las?



Gosto muito de entrar em livrarias para olhar guias e livros de fotografias de lugares. Outro dia, folheando um sobre restaurantes, me lembrei de uma mulher que vou chamá-la de Anita, a qual fui apresentado há muito tempo. Na tentativa de encontrar um tema comum a todos para estabelecer uma afinidade, comecei a dizer naquele encontro, que uma das minhas ilhas de prazer na vida era viajar e sobretudo para novos lugares. Destinações desconhecidas me fazem mergulhar na perda das referências que me traz uma agradável sensação de desbravamento das culturas e dos paladares. 
Enquanto falava, Anita me olhou e com um pedido de licença em seu olhar, disse “Detesto viajar... Olho as fotos dos lugares e me dou por satisfeita”. Eu a interpelei um pouco surpreso: “Nem para Tiradentes?” Ela, sem o menor tom de agressividade, mas com uma franqueza respeitável, de uma vez que aquela afirmativa iria restringi-la, me respondeu – “Não gosto de viajar, não gosto de jantar fora... Não faço questão de sair do meu mundinho”.
Lembro-me bem que a partir do que ela me disse, comecei a divagar silenciosamente em minhas considerações.
Pensei Anita. Pensei esta mulher como sendo uma pessoa que ao invés de conhecer um quadro sob os olhos, acharia uma foto da tela suficiente, como se bastasse olhar o cardápio de um restaurante sem nada pedir... 
Perguntei-me: A sua alma se alimenta de que? 
Já pensou o mundo sem a curiosidade para além dos limites visíveis? O que seria de nós? 
Estaríamos morrendo das mesmas doenças da idade média e até mesmo as de épocas anteriores. Mesmo a fotografia que a saciava foi inventada por uma alma instigadora.
O mundo evolui devido a emancipação do conhecimento. O nosso mundo interno também.
O crescimento nada mais é do que se aventurar ao novo estágio: o movimento de renúncia de uma condição para ingressar em outra.
Li uma matéria no jornal O Globo, sobre um elefante na Coreia do Sul do Zôo Everland, que consegue expressar cinco palavras em coreano: olá, sente-se, não, deite-se e bom.
Como declara a repórter, é obvio que o elefante não tem noção do que diz, mas o contato intenso com os humanos expandiu sua possibilidade. 
O elefante não tem o aparelho fonador. Ele consegue dizer as palavras ao criar um meio para superar esta limitação. Colocou a tromba em sua garganta para que no sopro pudesse recriar o som das palavras... 
Se um elefante que rompe seu nicho para se defender da solidão, pois não tinha nenhum companheiro de sua espécie durante anos, estabelece um contato além do que seria o natural e consegue assimilar aspectos que não pertencem a sua natureza, imagina uma pessoa o quanto pode acrescentar em si mesma, ao estabelecer linhas de comunicação e conhecimento com outros mundos.
Atualmente a Organização Mundial da Saúde afirma que nos centros desenvolvidos, uma pessoa de 72 anos tem a mesma perspectiva de saúde que uma de 20. Nossa longevidade é fato certo no mundo atual. No entanto, viver mais deve ser aliado a viver emocionalmente bem.
De que adianta conquistar uma vida longa sem uma cognição bem desenvolvida? 
De que adianta uma pessoa ultrapassar as barreiras cronológicas dos ancestrais e ter uma precária vida mental e emocional?
Hoje se sabe que alguém que assimila mundos novos e que se mantém inserido no contexto evoluído das ideias, desenvolve mais recursos no cérebro, estimula as sinapses e potencializa a sua resiliência, ou seja, fortalece a resistência emocional. Portanto, meu susto em relação a Anita passava longe de um preconceito pelo modo de vida, mas em saber que a permanência num mundo menor é fazer com que o cérebro deixe de encontrar desafios. Deixa com isso de evoluir. É se abrir ao mau porvir, pois o futuro virá, mas a qualidade em vivê-lo depende de cada um.
O psiquismo tem uma tendência natural a inércia, ele é estimulado no encontro com o novo e depois desacelera.
O novo é que estimulou o cérebro do elefante e é evidente que qualquer elemento novo tem o poder de estimular o meu, o seu e o de todos que se aventuram ao descobrimento.
Soube tempos depois, que aconteceu com Anita o que temi quando ouvi o modo excludente com o qual se conduzia. Começou a desenvolver uma senilidade, a partir de uma depressão. Não soube temperar... Vida insossa... Alguns diriam de modo leigo: “Ah... Problema inevitável da idade”. Grande erro.
O que faz com que uma pessoa seja considerada velha? A que ficou parada no tempo. Aquela que se exclui gradualmente do mundo. A que não acompanha o fluxo dos acontecimentos.
Sabe aquele jogo de dados? Que você tira um número e conforme o lado você anda um determinado número de casinhas? Pois é... tem pessoas que andam para trás. Lançam sua sorte ao contrário do que seria favorável a si mesma.
Como disse Freud o importante é criar um mundo sobre o qual você possa e goste de viver. Toda pessoa que se fecha em si mesma, vai se “ensimesmando” e perdendo a habilidade de lidar com a vida.
Se em contato com um novo mundo até um elefante aprende a falar... Imagine o que você pode aprender em contato com um mundo além da sua realidade... 
Aliás, escrevo esta crônica em Búzios, depois de ter descoberto um restaurante que tem um chefe que se chama Máximo, que chegou aqui com seu talento e sem nenhuma experiência com o Brasil. Dada a chance por Dª Amália, proprietária de duas belas pousadas, ampliou o mundo de sabores ao acolher novos elementos. Sua arte sem fronteiras fez dele chefe de um dos melhores restaurantes que conheci na região.
Enquanto “Anitas” escolhem viver entrincheiradas nos mundinhos, há os “Máximos” da existência, que atravessam os limites e constroem a vida dos sabores. 
Pena... que alguns com o tempo se tornam “Anitas” ao invés de se tornarem os “Máximos”.
A vida que vale a pena ser vivida?
Aquela que pode ser aprendida.
Aquela que é expandida.

Manoel Thomaz Carneiro

10 comentários:

  1. Manoel, cada texto é um presente! Obrigada desde já!.....lendo aquela parte deste que vc fala “o movimento de renúncia de uma condição para ingressar em outra”...bem, isso remete ao apego...comumente, tentamos petrificar as coisas, os sentimentos...E para que, não é mesmo? Afinal, sabemos que todos os dias podemos nos dar o prazer de ver e sentir muitas outras emoções. Independente de onde estivermos, sempre será possível um olhar e um encanto novos! E é por isso que é tão bom viver!Alé do que, o coração agradece!um beijo, Andréa J.

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    1. Andréa,
      Exato progresso: O movimento do elefante...tenta sair de uma condição para ingressar em outra..O desapego para não petrificar o olhar a uma condição...A vida é vasta para os criativos.
      Um beijo
      Manoel Thomaz

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  2. Manoel, isso tudo é fruto de sua grande sabedoria.Como é bom ler quem tem horizontes enormes e vive plenanente.

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    1. Regina
      Atenta aprendiz dos pratos agridoces.
      Refinado modo de transformar amargos em alimentos...seguidora como eu...dos grandes chefes do pensamento.
      Um beijo
      Manoel

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  3. Sônia Severiano Ribeiro6 de novembro de 2012 18:13

    Viver só é bom, vivendo intensamente, aproveitando as pessoas queridas,.as manhãs de sol, os dias chuvosos, viver é bom dando asas a nossa imaginação,Chorando quando sentimos vontade e sorrindo para o novo dia. Mundo interno, mundo externo, ELES fazem a nossa vida!
    Agradeço a DEUS todos os dias pelo presente de um Novo Dia.Pretendo ultrapassar as barreiras da idade, tento colocar sempre flores em meu caminho.
    Beijo amigo Manoel. Sônia Severiano

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    1. Sonia,
      Os adornos são temperos que ajudam a tornar a vida mais saborosa...Mas,de qualquer modo, sabemos que algmas pessoas encontram aonde desconstruir o bom e o belo.
      Pena..
      Beijo, Obrigado por participar do blog sempre
      Manoel

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  4. Manoel, me faz cada melhor!!!!!!
    A cada palestra mais uma descoberta do meu interior.
    Cada dia, uma surpresa, nem sempre agradável mas, que me faz pensar em mim mesma, e ter forças para me renovar.
    Obrigada mestre por ajudar-nos a simplificar nossas vidas!
    Bjs
    Valeria Mesquita

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    1. Valeria,
      Recitas...simples sã por vezes muito eficazes para transformar o sabor do cotidiano,
      Um Beijo,
      Manoel

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  5. Amigo Manoel,
    Parabéns pelo seu blog e por sua última publicação!
    Muito inteligente e interessante a forma em que você expressa suas idéias e a sua visão com relação aos diferentes "valores" que nós seres humanos optamos na vida.
    Um grande abraço,

    Sebastian

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    1. Sebastian
      Muito obrigado!
      Você com seu movimento de alma expandido contribui e muito na criação de momentos de prazer. Ajuda na manutenção da Vida que Vale a Pena Ser Vivida.
      Um abraço
      Manoel Thomaz

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