segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Você é um cartão postal?



Você é um Cartão Postal?
Passamos por vezes, durante as férias diante de lugares extraordinários, nos perguntando como seria a vida num local tão maravilhoso.
Ouvi uma história sobre uma mulher, que sonhou muitos anos, com uma casa que tinha belíssimos balcões numa pequena cidade da França. Acabou conseguindo comprá-la, mas sua tranquilidade durou pouco. Ela a pôs logo a venda, por se sentir incomodada com as contínuas levas de turistas que paravam diante das suas mágicas janelas.
A história dessa francesa me fez pensar naquelas pessoas que quando conhecemos nos parecem paradisíacas, mas... a convivência nos leva a querer colocar em liquidação rapidamente esta proximidade.
Às vezes herdamos alguns lugares ou mesmo “herdamos” pessoas que à distância parecem para nós cenários familiares de cartão postal, mas o tempo traz a tona um contexto difícil de viver.
No entanto, se pensarmos bem, de perto nada é tão perfeito quanto à distância induz... Mas, cuidado! Uma pessoa deve observar o grau de idealização que utiliza como premissa, para avaliar a qualidade do que possui. Algumas expectativas exageradas levam a incapacidade de sentir prazer ou amar o que a cerca.
O mundo real não atende a todas as necessidades que projetamos em nossas buscas. Como tão bem afirma o filósofo Nicolas Grimaldi “Uma pessoa se une a alguém ou parte para conquistar alguma coisa para encontrar uma “justificativa” ou um apaziguamento para sua vida” e prossegue, “Para cada um, esta espera revela que não tem dentro de si mesmo, sua autossuficiência” Portanto, quanto menor o nível de autossuficiência, maior a espera do encontro de um cartão postal e menor capacidade de amar o real.
Os atores, as modelos, as casas, os países, os hotéis e também as pessoas... e consequentemente as relações, com o tempo trazem a tona a revelação de que nada permanece encantado para sempre. 
De longe o planeta é azul... plácido, ao nos aproximarmos, logo sabemos que a vida nele ocorre sob uma tensão permanente.
Em nossas vidas: a minha, a sua... Somos submetidos em muitas fases às ambivalências internas: conflitos e serenidade; certezas e incertezas, muros internos limitadores e sonhos de emancipação, medos e ousadias. Atravessamos momentos de alegrias, de tristezas, sofremos e somos marcados. Como o lodo que se forma com o tempo nas fachadas das residências paradisíacas, somos talhados na pele pelas marcas de nossas vivências.
Dentro de um determinado sentido, os Antigos Pensadores e Nietzsche não estão errados, quando afirmaram que se queremos ser felizes devemos esquecer certas coisas. Eu acrescentaria, que além de esquecer, devemos remover, retocar, aparar e tirar uma conquista de cada conflito para não ficarmos soterrados pelas camadas de lodo acumuladas no tempo diante da passividade.
Faça uma revisão de seu interior em 360 graus e verá que todo cenário paradisíaco apresenta detalhes a serem retocados.
Semelhante a preservação de um lugar deslumbrante: vista para o mar; piscina suspensa; paredes brancas; balcões... uma perfeição instantânea que para permanecer tem que se reproduzir nos instantes com muitos cuidados. Assim conosco e com os contextos de nossas vidas.
O que seria uma pessoa paradisíaca?
Teria sociabilidade na medida exata, generosidade sem extremos, criatividade sem delírios, responsabilidade sem rigidez, eficácia sem obsessão, bonita, flexível, bem humorada, profunda, sem marcas, sem dores, sem dificuldades. Irretocável.
Seria uma pessoa cuja convivência não traria jamais algum efeito colateral.
Você se habita numa estrutura com todos esses itens?
Um cenário permanente de cartão postal?
Então como diríamos, você não existe!!!
Se uma pessoa também busca encontrar todos os aspectos na vida de um cartão postal, então poderíamos perguntar:
Em qual lugar existe o que ela quer na forma que imagina? 
Talvez, só num cartão postal.
Como a francesa Eleonore que comprou uma idealização, sem perceber que antes ela também fazia parte da horda de turistas, que se concentravam diante dos balcões por ela cobiçados. Comprou um sonho, mas o seu excesso de exigência e consequente falta de lucidez foram os verdadeiros aspectos que tornaram a sua realidade um pesadelo.
O que faltou a ela? Ao invés de colocar em questão o lugar e o respectivo contexto, faltou realizar que a insatisfação tinha causa em si mesma. Como os filósofos refletem sobre a vida, para ser feliz ela teria que podar o tamanho de suas expectativas ao invés de abandonar a conquista.
Uma idealização exagerada em relação às coisas, aos outros e a si mesma, só leva uma pessoa a amar o que está distante, como a visão espacial do nosso planeta: plácido e azul.