quarta-feira, 4 de julho de 2012

Roma de Allen e A Nossa Cidade Invisível


Sabe aquela pessoa que somos?
Aquela que fazemos viável para viver?
A visível, que dorme, acorda, come, trabalha, casa, tem filhos, viaja? Não é tudo que você é. Não é tudo que somos.
Quando penso de quais partes constituem a estrutura de uma pessoa, me vem o título de um romance do escritor italiano Ítalo Calvino, Cidade Invisível.
O âmago de nosso ser, não tem comunicação direta com o mundo externo. Ele surge velado sob várias formas: sonhos; pensamentos estranhos; atos falhos; desejos... Temos um porão repleto de aspectos de nós, que para nos manter na civilidade não podem ser destampados e liberados sem uma certa atenção.
Temos uma cidade onde moram partes de nós, que se surgissem em nossa vida cotidiana nos fariam às vezes inviáveis. Dentro de uma mulher fiel, mora a infiel, dentro da disciplina de um trabalhador mora o diletante, dentro daquele que bebe uma taça de vinho mora o que poderia beber mais, mora o que poderia comprar mais, comer mais, xingar mais. Mora na nossa cidade invisível aquele que boicotaria a nossa escolha e a vida civilizada.
O novo filme de Woody Allen, “Roma com Amor”, poderia se chamar Roma: “Cidade Invisível”, pois fala das relações amorosas, das indecisões afetivas, das escolhas sensatas eternamente ameaçadas por este lado “louco” de nós mesmos.
Sabe aquele “casadinho” que surge diante dos olhos, após a sua tomada de decisão de fazer uma dieta e ser fiel a sua escolha?
Pois é... Assim se passa em Roma de Allen, a vida que escolhemos não envolve todos os nossos anseios.
A professora do interior recém casada, que chega com seu marido a Roma, acaba encontrando o seu ator predileto e ali ela se vê diante daquilo que apenas fazia parte de uma fantasia, depois se envolve com o ladrão, representando o sonho erótico do homem viril que sequestra, arrebata e tira uma mulher do seu controle.
No jovem casal americano, surge a outra, que pouco a pouco faz desmoronar os muros defensivos do arquiteto, mostrando que às vezes a espessura de nossas repressões não se sustenta quando a tentação se torna frequente e intensa.
Temos também no filme o papel do anônimo que vive sua vida de casado, dois filhos, de sua mulher que sabe levar o seu cotidiano repetitivo e sonolento, sem grandes angústias até o momento em que a fama instantânea, com duração de uma semana, começa a fazer parte da vida deles trazendo a tona o desejo que temos de prestígio, poder e visibilidade... A partir daí, a vida daquela família perdeu a inocência e quando tudo passa não conseguem voltar à mesma existência com a ingenuidade de antes.
Penélope Cruz, como garota de programa, toda de vermelho é uma metáfora do diabinho que tenta com seu tridente nos tocar. Ela representa a gama das tentações na vida humana, e como no filme, existem mas não podem encontrar grandes brechas na jornada de cada um. Penélope vive na diluição efêmera e não legalizada nas tardes da vida.
Todas as histórias apresentadas por Woody Allen falam de vontades que estão adormecidas e sublimadas, sem qualquer ameaça a capacidade de viver as escolhas feitas, até o momento em que a “ocasião faz o ladrão”.
O ser equilibrado é formado de podas, de escolhas e de permanente capacidade de recorrer as ponderações que o leva a renomear suas decisões mantendo-se fiel a seus princípios elaborados.
É saber sabidamente que há desejo que não podemos desejar mesmo que o tenhamos.
Quando decidimos algo para nossa vida, desejos antagônicos e boicotadores surgirão, mas aprende-se a diferença entre o bem e o bom.
Nem tudo que pode ser bom num momento, fará o seu bem no momento seguinte.
Comer é muito é bom, mas fará bem se for sem controle?
Assim, vamos aprendendo através da reflexão a construir a vida na cidade visível, a Roma com Amor. Aprendemos também a conservá-la mantendo certas tendências que se tornam perversas, vontades que sinalizam a autodestruição e certos sentimentos na Cidade Invisível.
Não conseguiremos sempre dar conta de zerar os riscos, mas a cidade civilizada é cidade mantida por algumas Leis Sensatas.
Como tão bem disse Freud “O Olhar é a Traição dos Civilizados”, sempre sobra o olhar fora do controle, mas o que não falta na vida em equilíbrio é Bom Senso.