terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Feliz Alma Nova


Precisava tirar uma foto para um documento e me indicaram duas opções: o photomaton que tem no supermercado Monoprix ou um fotógrafo na rue Brézin. Como detesto os resultados desses automáticos, optei pelo especialista.
Ao chegar ao número indicado, encontrei um pequeno estúdio equipado com o que há de mais moderno e um curvado senhor encostado no balcão. Pensei que fosse o avô ou mesmo o pai do fotógrafo, mas realizei logo, logo que se tratava do titular. Era tão ágil e seguro que seus sinais de idade desapareceram pouco a pouco em meu olhar. Colocou-me sentado e com uma firmeza impressionante dirigiu minha postura e minhas expressões: “Levante os ombros... Sorria apenas com os olhos... Erga um pouco seu rosto”. Diante de tamanha competência me senti diante de Tim Walker para a capa da Vogue de dezembro! Com a velocidade típica dos franceses, minutos depois manipulava as provas, definia os enquadramentos e as distâncias na busca do melhor resultado. Decidiu por si mesmo, colocou tudo num envelope e num tempo biônico disse: “Pronto. Se não fosse para um documento teria escolhido mais distância e a foto sairia melhor. Oito euros, Monsieur”. Quase que pedi uma tiragem para mim do modo mais artístico que ele havia assinalado... Mas voltei ao foco e fui providenciar o que deveria ser feito.
Saí impressionado com este senhor de uns oitenta anos que abriu sua alma para acolher a última geração de equipamentos. As paredes amareladas, as máquinas ultrapassadas e a velocidade de uma moviola sem dúvida estão longe da vida dele.
Absorvido pela força daquelas imagens pensei na proximidade da virada do ano. Pensei também nos muitos que recebem o ano novo como um vilão “distanciador” das referências de vida. Como se o novo apenas marcasse mais um traço na proximidade a velhice e as situasse num estatuto de prazo de validade vencido. Escuto muito, mas muito mesmo a expressão descritiva de uma época: “Isto no Meu Tempo era assim...”.
Essa frase denuncia que a pessoa que a diz, de modo inconsciente, já se excluiu do agora. Como se o hoje fosse um tempo do qual ela estivesse impedida de se apropriar.
Muitas pessoas aos 40 anos já se datam nas possibilidades, mesmo neste mundo expandido no qual vivemos. Percebo que a idade em muitos gera um sutil constrangimento no existir, como se estivessem na vida num prazo esgotado e, portanto sem direitos, mas com apenas deveres. Grave culpa, grave autodepreciação e gravíssimo erro de ótica em relação ao que é de fato viver em toda a implícita amplitude.
A morte é sem dúvida uma definitiva retirada da vida, mas muitos fazem uma gradual saída aos se excluírem do tempo atual, ao renunciarem a adaptação e também a possível e fascinante evolução em todas as fases.
Freud aos 82 anos no exílio em Londres devido a crescente perseguição nazista, com um câncer no palato muito avançado, já com 33 cirurgias em seu histórico continuou a evoluir seus pensamentos com ideias potentes e consideráveis até hoje. Foi até aos 83 anos com uma resiliência digna da ideia de “Super-Homem” de Nietsche.
Ouvi pelo rádio, na France Info, que deixo quase sempre ligado para aquecer o idioma em minha mente, a notícia sobre o falecimento de Oscar Niemeyer aos quase 105 anos. Sua longevidade pode ser compreendida através dos projetos que realizou. Seu trabalho arrojado, futurista e de linhas arquitetônicas de muita sensualidade, nos oferece o espelho da modernidade de sua alma e sem a menor dúvida, é neste estado de espírito que podemos reconhecer os vetores determinantes da longevidade física e mental deste imortal arquiteto. 
As pessoas acham que se trata apenas de uma questão de manter-se ocupado. A qualidade da vida cotidiana física e psicológica envolve a abertura ao atual... Nossa mente vive das eucaristias, ou seja, se alimenta das ideias que oferecemos a ela. Se alimentar de algo vencido, faz mal ao corpo... Se alimentar de cotidianos mofados faz mal a nossa mente. Tal modo de agir, como bem dizem os franceses, transforma qualquer pessoa em “Décalé”. Ela vive dessa forma em duas realidades a exterior que é o hoje e a interior, involuída e retrógada. 
Muitas pessoas apresentam uma alma amarelada pelo tempo...
Sou mais para os pensamentos do que para os equipamentos, mas sempre fui vigilante ao retrógrado para com isto me impedir que eu continuasse a ouvir música em vitrola... Mantenho-me aberto ao novo para que a minha alma encontre lugar no hoje de cada dia. Ponho-me muito atento neste aspecto.
Presto atenção a me inserir também no contexto que se apresenta.
Se uma pessoa desaparece da minha vida, apesar da falta é sem ela que tenho que viver... 
Se o tempo esta nublado este é o dia que se apresenta...
Se algo desapareceu é sem isto que tenho que me perspectivar...
As únicas coisas que não podem faltar na minha vida, na sua e na de todos são: o desejo de viver bem e a sabedoria para saber se conduzir. É bom sempre lembrar que estes elementos estão dentro de cada um de nós e só os perdemos se formos displicentes consigo.
Evoluir abrange desde as atividades prosaicas do cotidiano às mais complexas. Em tudo podemos nos aprimorar. 
Neste último sábado resolvi me abastecer da ultima geração do celular, um Note II... Confesso que tremi um pouco ao ouvir tudo que ele me oferecia e o implícito domínio que eu deveria adquirir... Pensei em segredo diante da vendedora, uma senhora asiática um “Ás da Tecnologia”... “Ai, Ai, Ai... Como vai ser isto?” Ela ao perceber um resto de espanto que eu não consegui esconder totalmente, me falou: “Senhor, é fácil! É só seguir a lógica. Há uma lógica nisto... Ele é de toque e é só desdobrar neste fluxo.” Pensei nesta hora no fotógrafo da rue Brézin, naquele impressionante domínio e me disse que para os celulares atuais o meu lado psicanalítico quem sabe poderia me ajudar a manuseá-los, pois estão carentes e então basta toca-los para que funcionem. Basta acaricia-los com um dedo para um lado ou para outro para que eles respondam através das funções na velocidade Mega!
Sentei no café Les Philosophes no Marais para refletir e assimilar os comandos do meu novo celular. Pensei na revitalização que impus aos meus neurônios, pensei nas novas sinapses que aconteciam em mim através da minha determinação, pensei também na revitalização do Marais, este bairro de Paris do séc. XVII, que conserva suas características, mas esta de Alma Nova, pensei no Monsieur fotografo, pensei em Freud, pensei no Niemeyer, pensei nas cidades europeias que conservam patrimônios de séculos sem ficarem paradas no tempo, pensei nos urbanistas revitalizadores e concluí...que o importante é conservarmos as nossas histórias sendo um grande urbanista de si.
Para 2013, aproveite o grande símbolo de nascimento do Natal e faça um projeto de modernização na sua alma.
Através da resiliência de Freud, do arrojamento de Niemayer, do determinismo do fotógrafo e das autopercepções, escolha algum bairro de si que precise ser revitalizado e abandone o urbanismo ultrapassado... Vença uma limitação e faça disto a Alma Moderna do Novo Ano.
Vença um traço da sua personalidade limitador de alguma evolução que você tenha que realizar.
Ultrapasse seu luto... Ultrapasse suas carências...
Vença um sentimento persecutório causador do envenenamento dos seus momentos... Uma culpa excessiva, uma mania aprisionadora... Uma tendência a se depreciar...
Escolha algo em você e faça como o fotografo, mude a postura, modifique a expressão e tire a foto de sua Nova Alma.
No Natal de a si este grande presente... Fazer de você uma pessoa de ultima geração... E entre em 2013 de alma nova.
Prepare-se... Ainda há tempo.
O meu Muito Obrigado a todos que contribuíram para que eu pudesse considerar 2012 um Ano que Valeu a Pena ser Vivido.
Feliz Natal em Você!
Até a terceira terça feira de janeiro, quando retorno com as crônicas. Até lá!
Um brinde?
Tome Posse de Si Mesmo e
Feliz Alma Nova!

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A Neve que Cobre




Ao chegar a Paris, soube logo de uma história com uma conhecida distante que me deixou estarrecido...
Tina, assim vou chama-la, encontrou em uma de suas viagens ao Brasil, um belo homem que a deixou completamente apaixonada... Como sabemos toda paixão é mobilizadora, pois nos retira de nossa vida cotidiana para nos orientar na nova miragem... Sim miragem, pois a paixão também nos deixa com as percepções embaçadas... Com a serotonina e a oxitocina, que é o hormônio do amor, em níveis elevadíssimos decorrentes deste nirvana periódico, ela se organizou para ir sucessivas vezes ao Rio, até para comemorar o seu redondo aniversário de 50 anos. Aliás, festejado sem crise alguma, pois se sentia debutante da vida e do amor... O “Carioca Charmoso” era só malícia e delícia...
De volta, Tina queria mostrar esta cidade para viver as cenas românticas do filme “Meia Noite em Paris” de Woody Allen... E assim tudo foi organizado...  Para recebê-lo, pintou o apartamento, comprou entradas para exposições, espetáculos, organizou uma prejudicial parada no trabalho, uma vez que ela é freelance. Chegado o grande dia, lá foi ela espera-lo no aeroporto Charles de Gaulle na hora marcada... Falaram-se até o último minuto antes do embarque... Assim Tina passou a noite quase em claro a espera do pedaço de Sol chegar neste final de outono.
Aviso no terminal 2F... Avião Pousado... Mais uma hora... Mais duas... Mais três... Mais quatro... Todos os passageiros já tinham saído e o Sol de Tina não havia surgido.
O que aconteceu? Perguntamo-nos do mesmo modo que ela se perguntava... Várias hipóteses: algum problema na polícia; se perdeu no imenso aeroporto; passou mal durante o voo. Desesperada tentou falar com os funcionários de vários setores e ninguém sabia orientá-la. Até que se lembrou de um conhecido que era comandante de bordo da companhia aérea que ele tinha embarcado. Checou a lista e nada... O nome? Talvez outro sobrenome? 
Todas as hipóteses esgotadas e o gradual confronto com a chocante realidade. Ele simulou tudo! Não havia passagem alguma, não havia embarque, não havia saudades. Não haveria encontro... Em estado de choque, foi colocada num taxi por um sensível funcionário...
Tina chegou em casa só, apenas com a paixão, todos os sonhos, todas as entradas, todos os passeios e com todas as horas de espera. O amanhecer a partir daquele dia seria sem o sol que se tornou cruelmente desaparecido.
Lembro-me dela no Rio, e de sua contagiante alegria, mas quando conheci o “Charmant Chevalier” alguma coisa me passou de modo subjetivo... Os olhos do amado não brilhavam como os dela. Havia algo. Cheguei a comentar, mas fui censurado e também me censurei, pois afinal...
Ao me contarem este triste epílogo, me foram logo lançadas as perguntas: “Como alguém pode ser capaz de fazer isso?” “Como um ser que respira, beija e vive pode ser tão frio, tão indiferente à dor que causa ao outro?” Afinal se trata de um homem sério, bem sucedido!
As indagações e as exclamações revelam o quanto de alguma forma todos foram traídos, pois vivemos um pouco de modo sublimado estes alheios intensos encontros apaixonados... Eu estava chocado e fui invadido em meus pensamentos pelas etapas de Tina para recebê-lo: no minucioso preparo, na ansiosa espera e na imensa decepção.
Pensei alto “As pessoas se enganam e por isso são enganadas”. 
Esta história me lembrou duma aula que dei este ano, que foi considerada pelas turmas uma das mais mobilizadoras. Comecei-a pela explicação sobre as três idades simultâneas que temos: “a cronológica”; “a física” que se cuidarmos hoje a medicina nos afirma que podemos apresentar uma constituição de quinze anos a menos que a cronológica e temos também a idade “emocional”. Esta última se divide em íntima; social e profissional.
Um publicitário de evidência e, portanto de sucesso tem a idade emocional/profissional para o trabalho bem madura, mas a sua idade íntima pode estar presa aos quinze anos, o que o levaria a ainda estar incapaz de criar na vida afetiva profundos vínculos.  Esta específica imaturidade é que tornou este “Carioca” incapaz de olhar o outro com humanidade e respeito. 
Muitos homens podem ter uma aparência segura com fala firme e voz grossa, mas no mundo subjetivo possuem corpos de uma meninice deslocada. Um verdadeiro menino atrevido, voluntarioso e explosivo.
Quantos? Muitos. Muitos mesmo.
O ser humano tem uma tendência a avaliar a maturidade global de uma pessoa pelo sucesso profissional e muitas vezes também pelo poder aquisitivo que em nada refletem o QE intimo e social. Ou seja, o quociente emocional.
Estas pessoas são capazes de viver desejos e paixões, mas ainda estão longe dos compromissos mais profundos. Intensidade não significa maturidade e nem mesmo qualidade.
Razões para apresentar esses comportamentos?
São inúmeras. Difícil relacionar numa crônica sem enfraquecer as visões.
Como afirmou Shakespeare: “Há mais mistérios entre o céu e a terra, do que toda a nossa vã filosofia”. 
Mas... Freud veio e iniciou de modo ímpar a revelação da linguagem do inconsciente, e com isto muitos mistérios foram desvendados. A partir da psicanálise podemos compreender que o “Carioca Charmoso” tem seus mistérios, mas podemos lançar algumas hipóteses ligadas às famosas razões edipianas.
- Ressentimento feminino deslocado
- Relação fusional excessiva com a mãe que não o permite ser fiel e terno nas relações afetivas.
De qualquer maneira é bom lembrar que explicar de modo algum significa inocentar.
Conclusão? O “Carioca Charmoso” se tornou o “Sol Poente” antes da chegada do “Meio Dia”, porque não tem maturidade psíquica para viver o amor sem causar danos.
A nossa lucidez está em saber isto. 
O trabalho possível de maturidade envolve primeiro o reconhecimento da própria inconstância nas relações e na inerente incapacidade de vivenciar as permanências. A partir daí poderá estabelecer um trato consigo, para em segunda etapa realizar as percepções de sentido que irão alavancar o desenvolvimento do psiquismo em direção a uma existência mais adulta e, portanto, mais apto a controlar sua dinâmica existencial.
O que é a vida adulta senão a capacidade de olhar o outro e sair da condição de absoluto narcisismo?
O que é a vida adulta senão a aptidão para ponderar os próprios instintos?
No entanto, o importante é saber que às vezes podemos ser vítima de alguns vilões do amor. Pode ser uma vilã... Pode ser um vilão.
O importante é também saber que o destino não irá proteger o ser humano dessas feridas, mas que temos capacidade de fazer bem com aquilo que nos fizeram Mal.
Afinal... E, Tina?
O que ela poderia fazer de melhor diante desta realidade?
O que fazer com a decepção, com a raiva, com a dor, com a inevitável revolta?
O que fazer?
Aceitar a dor... Encarar o inevitável.
Acima de tudo saber se conduzir na boa direção.
Precisaria aprender que a tristeza e a mágoa que sentia eram inevitáveis respostas emocionais ao acontecido. Eram emoções legítimas.
Ao invés de fazer dos ingressos de suas expectativas folhas mortas de um verão abreviado, teria que recorrer à vivência de uma impecável inteligência emocional. 
Se não pudermos mudar alguma história, temos que recorrer a incondicional liberdade que temos para modificarmos nosso futuro em relação a ela.
Soube que Tina se conduziu muito bem nesta história. Pegou a potência da raiva para reorganizar-se diante da situação.
Tentou falar algumas vezes com ele e jamais conseguiu...
Tina chamou um amigo para cada programa que havia organizado para sair com o Carioca nesta romântica Paris e ainda reuniu em casa todos para um jantar, onde utilizou quase tudo que havia comprado para acolher a sua paixão.
Ao final, me contaram, abriu uma garrafa de champanhe e pediu para que todos levantassem as taças... E?... Brindou a Sorte. Todos de olhos arregalados exclamaram assustados... Sorte de que?
“Mes Cheries!” Sorte... Meus queridos! Cheguei à conclusão que tive duas sortes que não apagam a minha dor. A Primeira? Percebi que vivi momentos inesquecíveis, por isso dói muito, pois é difícil renunciar a esta vontade louca do “quero mais”. A segunda? Sorte que acabou logo, antes que a presença dele ficasse impregnada aqui neste meu mundo.
Como não poderia fazer qualquer coisa em relação a ele, fez tudo que poderia em relação a si mesma.
Hoje pela manhã quando fui correr no Jardim do Luxemburgo, as folhas do outono estavam desaparecidas pela neve que caiu esta madrugada... Ao olhar pensei nesta crônica. Pensei que o verão de Tina se tornou folhas mortas, mas ela prosseguiu e cobriu com um manto de inteligência todos os sonhos amarelados... Cobriu de branco... Fez com o feio o bonito e com essa atitude se permitiu começar a renascer.
Tomou posse de si mesma...



quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Enfeitar a Vida


Hoje enquanto corria meus oito quilômetros diários pelas ruas desta Paris cinza invernal que adoro, passaram duas bicicletas em momentos distintos conduzidas por mulheres e nas cestinhas estavam flores colocadas como se fossem jardineiras. Biciclizavam pelas ruas como se fossem balcões sobre duas rodas. A poesia da cena urbana encantou minha alma que já estava em estado de graça pela endorfina que a aeróbica produz. Ao chegar ao Jardim de Luxemburgo, me deparei com todas as floreiras de mármore preenchidas com imensos arranjos. Apesar do inverno, eles os colocam para colorir e dar sentido aqueles vasos enormes que adornam o lago deste jardim. Colocado em alternâncias nas cores laranja e amarelo e branco o céu cinzento era colorido pela capacidade humana de enfeitar a vida. Mais adiante, dois pinheiros enormes decorados com imensas bolas de natal... Assim, a cada novo trecho do percurso, a minha corrida deixava de ser apenas uma atividade esportiva e saudável para ser o testemunho da poesia urbana.
Ao término, uma hora após, antes de subir para minha casa passei na caixa de correspondência e vi que havia chegado a programação dos Seminários Psicanalíticos de Paris para o inverno 2012 e 2013, com temas interessantíssimos... Pensei o quanto aprender enfeitou as minhas ideias, coloriu meus pensamentos, enriqueceu minhas ponderações, refinou minha sensibilidade, qualificou meus sentimentos, e poetizou minha alma.
Testemunhar novos conhecimentos é semelhante a viajar de olhos abertos em que percebemos cenas que nos inspiram a fazer melhor a nossa vida, fazer diferente...
O saber de uma nova linguagem psicanalítica me fez ampliar o espectro das minhas possibilidades e me ajudou de modo profundo, saber sair com equilíbrio e poesia das difíceis situações da vida. Ajudou-me a me equilibrar nos lutos, nas traições, nos sustos e nas dúvidas. Ajudou-me a passar com duas rodas sem cair sobre os caminhos e sem entrar nos descaminhos pela ausência de boas premissas.
Por vezes desequilibramos apenas pela falta de parâmetros para refletir bem as situações.
Um dos grandes objetivos que me levou a criar meus cursos há exatos 23 anos, foi desejar ensinar tudo aquilo que me fez tão bem aprender. Quantas compreensões me libertaram das dúvidas. Uma alma elaborada é uma alma liberta do peso e, portanto capacitada para apreciar as poesias urbanas que se envolvidas no obscuro das neuróticas incompreensões, se tornam visões inapercebidas. 
Como diz o filosofo francês André Comte-Sponville, a função da vida não é criar inteligência. A função da vida é sobrepujar e se adaptar para que ela possa ser vivida... O conhecimento traz a simplicidade. Segundo este pensador “Ser simples não é procurar a pequenez, mas recusar as falsas grandezas”.
Aprendi, sobretudo que a espera de um imenso acontecimento para ser feliz é procura-la nas falsas grandezas.
A felicidade diz Sponville, depende de uma disposição interior. Qual? A que os antigos chamavam de “sabedoria” e que nós, continua ele, poderíamos chamar de forma mais simplificada de amor à vida. Se você ama a vida, você tem uma excelente razão para viver e lutar e para lutar, mesmo quando a felicidade não estiver presente.
Paris já esta colorida para estas datas mobilizadoras de fim de ano. Falta apenas que cada um faça sua prefeitura interna, começar a enfeitar as ideias e os pensamentos, para que os cinzas dos invernos emocionais possam ser quebrantados pela irradiação das luzes internas. 
A palavra luz pode ser associada a saber, perceber e uma das coisas que podemos ter certeza é que a vida ganha brilho através da luz do olhar que cada pessoa pode lançar em si para os momentos.
Tenho certeza que as duas mulheres das bicicletas sabem enfeitar a vida. A frente delas em todos os percursos que passam não importa quais, estão as flores que elas plantaram pela própria decisão. Alternando as pernas no impulso de pedalar se equilibram na vida. Sem cair devido ao firme propósito de se conduzirem, seguem o inverno primaveril reflexo das almas coloridas.
Você já começou a enfeitar o Dezembro?  
Aproveite e decore suas ideias com o apreendido em 2012 para que brotem sentimentos coloridos no novo ano. O psiquismo é como um cachepot pronto para acolher novos conhecimentos, novas luzes, novos insights.
Se prepare... Ainda há tempo. Muito tempo.

Por Manoel Thomaz Carneiro

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Pessoas Granadas, Você as Conhece?


Fui no sábado ao Teatro Municipal assistir a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, regida pelo maestro Fabio Mechetti, com a pianista convidada Sonia Rubinsky. Noite agradabilíssima. Uma Orquestra linda de se ver e ouvir, Sonia em sua eterna elegância transbordou segurança e prazer. 
Após o término, fui fazer a fila para cumprimentar a pianista. Depois, os amigos que estavam comigo, chegaram.  Ao se juntarem a mim, a mulher de trás se pôs a reclamar, com toda razão. Eu disse para ela passar a minha frente, pois assim aquela desordem se colocaria logo em ordem, de uma vez que por alguns instantes a fila terminava ali... Sem conseguir se dar por satisfeita com a zerada do problema, continuou a suspirar e resmungar numa irritação desproporcional ao tamanho do fato e ainda entrou numa competividade de poder, bem demonstrada ao me dizer com um ar de desprezo irônico, “Se eu quiser nem entro nesta fila! Posso falar com ela pelo telefone!” Pensei então: “Nossa... Estou ao lado de uma Mulher-Bomba”. Respondi que entrar naquele clima ofensivo era desnecessário, pois afinal prontamente a solução já havia sido dada, era só uma questão de troca de posição. E ainda disse, já irritado; “Se situa. Isso tudo é desproporcional.”
Passado uns três minutos quando olho ao meu redor, naquela fila já enorme, vejo a mulher esbravejante, que deve ter em torno de seus 45 anos, lá adiante no segundo lugar de espera para falar com a pianista. Fez com todos o mesmo ato de desrespeito que a tinha indignado. Neste minuto cruzou o olhar sobre o meu com um semblante de vitoriosa e então, cruzei meus pensamentos reflexivos e concluí: Vitoriosa na fila, Vencida na Vida.
De imediato, tomei-a como um dos exemplos sobre o que havia desenvolvido em aula nas duas últimas semanas “O Conflito do Eu com Isso se Torna o Conflito do Eu com o Mundo”. 
Nas aulas, falei sobre a atenção que devemos ter em se controlar com lucidez, para impedir que o conflito interno se transforme num modo de viver o mundo. Quando uma pessoa deixa de conseguir manter o conflito que a perturba numa proporção equilibrada, de modo a permitir que ele – conflito – cresça e ganhe potência para contaminar o mundo, eis o princípio da psicose que se instala.
Recalques, amarguras, ressentimentos podem nos transformar, você, eu e todos, em uma pessoa com potencial explosivo.
Quantas pessoas parecem carregar uma ferocidade devido às amarguras sem elaboração... Quantas que fazem das buzinas dos carros armas sonoras... Quantas passam dando esbarrões agressivos pelas ruas afora... Quantas nas revoltas de uma vida mal conduzida se tornam atropeladoras do prazer alheio... Quantas gostam de tratar o outro com certo desprezo... Quantas enfim estão mal nesta vida... Quantas pessoas? Muitas neste imenso mundo.
Precisamos ficar atentos consigo mesmo. Precisamos controlar esta tendência humana.
Neste mesmo sábado tinha lido no Caderno Prosa do jornal O Globo, o que José Castello escreveu em sua coluna “Quantos de nós preferimos – viver sem viver – sob as ordens de um destino precisamente escrito, entre bandos “que matam sem matar” entre “bravos que no fim se vingam”... Preferimos sim, os sentimentos... que em vez de libertar funcionam com travas...”.
Ela, a que denominei “Mulher-Bomba,” estava tomada, dominada, vencida por algum conflito de sua vida que estava funcionando como travas. Qual conflito? Qualquer resposta será pura especulação sem fundamento. No entanto, pode-se considerar que pode ser até algo que possua um peso real, mas que por falta de reflexão, ponderação e controle a contaminou, a travou. 
Por que recorro ao termo controle ao invés de elaboração? Porque a elaboração está longe de poder eliminar todos os nossos aspectos ameaçadores a vida cotidiana, mas através dela podemos conquistar a capacidade de reconhecermos o que é saudável ser vivenciado e o que deve ser controlado. Nasce o contato com a capacidade de controlar determinados impulsos... Controle sim, pois a civilidade envolve a capacidade de reprimir determinados sentimentos e determinados impulsos de agressividade, que garantem nosso equilíbrio e a qualidade em saber olhar e respeitar o outro.
Como sempre afirmo: Podemos muitas coisas, mas nem tudo que podemos devemos.
Os acontecimentos mais difíceis de nossas vidas podem nos primeiros instantes e dias invadir a nossa existência de modo até a comprometer a nossa capacidade de viver o dia, mas a atenção deve sempre ser mantida para que o desgoverno pessoal não se transforme em sentimento debilitador de nossos discernimentos e invada todos os setores de nossas vidas. 
José Castello neste mesmo sábado, nos traz um poema onde fala sobre uma enigmática aranha que transita em nós. “A beleza pode estar numa aranha que anda, sem que possamos entender seus motivos. “Sem que eu, a testemunha,/ saiba, digamos, interpretá-la”. A aranha (repugnante) expressa a dança dos sentimentos: eles se movem no escuro, dão saltos imprevisíveis e escapam a toda compreensão. A aranha ameaça e fere: ela nos atinge. Permanecemos em silêncio, com a beleza da sua dança, ainda que repulsiva. Vá se entender com o que sentimos.”
Poderíamos também pensar:
Vá se entender com que sente.
Vamos nos entender com o que sentimos.
A noite de sábado, plena de música, pessoas, num ambiente tão secular é como um vinho que derrama sob nossas taças, sob nossas almas, mas algumas já estão tão plenas de amarguras, que ficam impedidas de se embriagarem com a sensualidade destes momentos.
As almas devem ser lavadas com as reflexões e elaborações. As almas devem ser purificadas com a lucidez... As almas devem estar sempre liberadas para receber o Belo e o Bom.
Caso não o faça, ela explode como uma bomba sempre por alguma razão deslocada...
Mulheres-Bombas... Homens-Bombas...
Um Atentado... Socorro! Polícia!
Análise Neles!

Por Manoel Thomaz Carneiro

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Como Está Sua Vontade de Estar no Mundo?



Minha família por parte de mãe é muito grande. Só ela tem nove irmãs e dois irmãos, que casaram e se multiplicaram e esta progressão resultou em muitos tios-avós, tios e primos de primeiro e segundo e terceiro grau quase como uma produção em 3D espalhada por 6 estados do Brasil.
Conviver com todos é uma tarefa impossível. Sabe-se das histórias: quem casa, adoece cura, muda de emprego, de vida, no entanto tudo é sabido quase como na época dos navegantes, por cartas eletrônicas, é claro mais modernizada do que as de Pero Vaz de Caminha, mas continuam sendo apenas notícias.
Para compensar esta lacuna e atualizar nossa memória, decidiram organizar um encontro aqui no Rio e lá fomos ao grande jantar com vista para a Baía de Guanabara, pensando é lógico naqueles que ainda não conheciam esta cidade.
Durante o evento, reconheci pessoas e sobretudo conheci outras tantas. A cada um que eu era apresentado dizia: “Poderíamos estar sentados lado a lado num avião que não saberíamos da proximidade familiar que temos.”
Conversava com o namorado canadense de uma prima que não via desde que ela era pequena, quando minha mãe começou a me chamar freneticamente para que eu cumprimentasse suas primas de 80, 90 e 92 anos. Todas, sem exceção, sabiam de mim, do que eu fazia e algumas ainda me disseram que acompanham o meu Blog.
Diante de tanta lucidez e sobretudo precisão no agora, me lembrei da introdução da aula que havia dado naquela semana. Falei sobre os 15 bilhões de anos que nos separa do início do Universo, constituído de um sistema chamado Via Láctea com 100 bilhões de estrelas, sendo uma delas o Sol. Em torno dele massas, e uma delas é a nossa Terra. Nela existe 3 bilhões de espécie de vida e nós somos uma destas. 
Fazemos parte da família humana que persiste e resiste. Quantas histórias, cataclismos, doenças, guerras e apesar destes pesares a nossa espécie permanece presente, viva. Somos frutos da coragem daqueles que persistiram, dos que se reinventaram. 
Foi através de cada ato de luta pela sobrevivência de nossos milhões de antepassados que a nossa vida na terra foi mantida.
Somos 7 bilhões... Somos uma vida que sobreviveu a tudo e por isto não está em extinção.
Entre todas as espécies, somos a única que consegue criar alternativas para os limites. Os animais não podem transformar a natureza das coisas. Quando encontram eximidos os elementos necessários à vida, sucumbem pouco a pouco. Todos eles são destituídos da capacidade de encontrar um pensamento abstrato para o planejamento de alternativas de ação. Por isso, podemos ter certeza que quando uma pessoa deixa de pensar uma perspectiva de continuidade diante de um problema, age como um objeto que permanece para sempre onde é colocado, incapaz de se retirar, de se proteger, de se transformar.
Uma pessoa sem enfrentamento se coloca refém da força do destino, se faz imobilizada devido a própria descrença na inteligência criativa e transformadora que tem em si mesma, que fez possível a permanência do ser humano na terra.
Uma pessoa sem confiança nesta capacidade fica a mercê da sua inatividade e exposta a sua erosão emocional e cognitiva.
O ser humano para atravessar montanhas em épocas bem distantes no princípio, contornou, mas com a inteligência transformadora pensou, projetou e realizou os túneis. Encontraram soluções, proteção, curas... Rompeu fronteiras. 
Próteses foram criadas para potencializar as nossas capacidades. A bicicleta e o carro ampliam nosso caminhar, une distâncias; as imagens televisivas aproximam realidades; os celulares e os computadores aceleram informações; os aviões nos fizeram voadores; a medicina nos preserva; a filosofia, a psicologia e a psicanálise nos esclarecem e amplificam nossos sentimentos saudáveis.
Como se imaginar sem capacidade diante do testemunho de tanta inventividade?
Como se imaginar só e desprotegido diante de tantos recursos?
 Muitos foram mimados pelas facilidades e querem a pílula da superação...
Imagine o que seria da vida se todos diante das dificuldades tivessem se sucumbido?
Seríamos uma espécie em extinção.
Quando vi minha mãe com 88 anos num vestido lenço e a prima mais velha dela com seus 92 anos, ereta, vestida com uma nova releitura de um tailleur em preto e branco, ágeis, potentes, gloriosas e orgulhosas, pensei que estava diante desta parcela da humanidade que se reinventa em cada tempo. Construíram túneis para atravessarem as montanhas e chegaram inteiras ao hoje de cada dia.
Enxergaram os obstáculos e usaram a engenharia mental para calcular as saídas.
Uma pessoa se mantém lúcida quando quer enxergar. Fugir, fechar os olhos é ordenar ao cérebro a destruição da visão mental das coisas. O que é a senilidade senão a gradual perda de todos os contatos... Contatos com a realidade, com os recursos internos.
O termo delírium é derivado do latim “delirare” que significa “estar fora do lugar”... Quando uma pessoa se paralisa diante de uma realidade que deve ser enfrentada, quando se fixa no passado, pode-se dizer que ela delira, pois está fora do seu lugar.
Quando uma pessoa igualmente perde a vontade de acompanhar o seu tempo, que é cada hoje e imobiliza-se, ela está no delírio, pois também está fora do seu lugar.
Quando uma pessoa deixa de se reinventar, para se deixar a mercê da erosão de si mesma e com esta postura delirante em relação aos seus recursos de enfrentamento e pilares de sustentação, ela se coloca em extinção. Ela delira, pois está fora do seu lugar. Por quê? Porque o ser humano não é uma espécie ameaçada de extinção.
O “delírio” está presente toda vez que alguém se vê sem recursos para sempre encontrar boas razões de estar no mundo.
Há um tempo tinha um vizinho, que me cumprimentava sempre de modo simpático, mas sem grandes conversas. Um dia me procurou e disse que gostaria de conversar um pouco comigo.
Este senhor reservado, aceitou um chá e começou a contar que quando ainda menino, durante a segunda guerra, foi levado para um campo de concentração. Separado da sua família permaneceu apenas com um amigo. Um dia cada um estava numa fila e por intuição e alguns sopros de notícias, sentiram que um deles iria morrer. Fizeram a promessa que aquele que sobrevivesse, iria trabalhar muito, casar e construir uma família bem grande... Eliminar a possibilidade da raça em extinção. Disse-me que passou a vida renovando em si mesmo esta promessa e que como sabia da minha profissão, queria me dar este testemunho de continuidade.
Assim como ele, minha mãe, as primas dela em diferentes contextos, diante de montanhas diversas uns dos outros, se mantiveram na vida inteiros porque encontraram uma boa razão para estar no mundo.
Eu tenho sempre claro as minhas razões...
Uma delas? O Despertar para a Reinvenção da Vida. 
Você tem claro em seus pensamentos as Boas Razões?
Aproveite esta época e se prepare para um Novo Ano, um Novo Modo de Estar no Mundo.
“Infinito Enquanto Dure”.
Encontre em si a engenharia dos túneis e atravesse com a postura dos vitoriosos as montanhas de dor.
Depois?  Quem sabe... Organize um grande jantar. Para que? Comemorar As Vidas Reinventadas.
Já é uma boa razão para estar no Mundo...

Por Manoel Thomaz Carneiro

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Excesso de Peso Para o Viver?


Sábado à noite, comecei a reservar pela internet, minha ida a Londres em janeiro por três dias, a partir de Paris com duas amigas e dois amigos. Sendo que, uma está debutando na cidade londrina, o que me faz renovar ainda mais o meu desejo de retornar. Quando visito um lugar que conheço, acompanhado de alguém que está indo pela primeira vez, meus olhos reconquistam a estimulante sensação da descoberta na redescoberta. 
Começamos, depois de tudo acertado, a organizar mentalmente as nossas bagagens. Estamos com a intenção de conseguir embarcar com uma pequena valise. Desejamos eliminar das pequenas viagens, os excessos que só servem na correria para pinçar a coluna, deixar marcas nas mãos e ainda enrijecer o pescoço.
Nada mais civilizado do que conseguir fazer uma leve trajetória, sem aquelas mãos e ombros ocupados devido à falta de capacidade de minimizar e conquistar um volume altamente clean. Não é mesmo?
Quantas vezes levamos tantas coisas que nem sequer usamos, ou se vestimos é muito mais para justificar aquela peça, do que por uma real necessidade.
Fim da viagem de avião, o aguardo das bagagens e a inevitável tomada de fôlego, concentração de forças, para tirar da esteira sem titubear aquele peso imenso, que parece mais que estamos no movimento de abandono para sempre de algum mundo, do que o retorno de uma ida de três dias para Buenos Aires, Punta ou um fim de semana na Provence.
Esse desafio todo em relação a um hábito de acumular nas valises o que não será útil, me levou a pensar naquelas pessoas que acumulam dentro de si um amontoado de mágoas, raivas, invejas e faltas de épocas distantes que com isso, acabam por criar uma bagagem emocional pesada, toda constituída de dores e ressentimentos.
Carregar o peso das culpas inúteis, das acusações infantis de uma época já esgotada só faz transformar ao longo do tempo, a existência num caminhar amargo e pesado. Sabe aquela pessoa com um rosto com sinais de esforço? Esta mala é invisível, mas está lá sendo carregada pelo corpo subjetivo, já esgotado pela falta de trégua em suportar o peso que as amarguras contínuas impõem.
Já pensou aquela grande valise com roupas de 1958, 62, 66, 73, 79, 81 que se você tentar usar alguma parece de imediato datada, às vezes tão apertada que vesti-la é se abrir à construção de uma pessoa mais feia do que seria? 
Coisas datadas, que nos apertam, só nos fazem mal e entristecem a nossa alma.
A psicanalista Maria Rita Kehl em seu livro sobre ressentimento, escreve que este sentimento “não é um conceito da psicanálise. É um termo do senso comum que reúne uma constelação de afetos negativos – raiva... ruminações vingativas e amarguras. Acima de tudo, é uma queixa insistente, repetitiva que não aceita nenhuma forma de desagravo.” 
O que caracteriza o ressentimento? 
A persistência em manter. 
Dominado pela vontade de não abrir mão daquilo que pode ser até justificável e, portanto, legítimo, mas que a manutenção na memória só faz comprometer a vida.
Segundo Nietzsche, que realizou uma profunda reflexão sobre o ressentimento, é através da memória que algumas pessoas alimentam constantemente as impressões negativas. Isso, diz ele, provoca um ressentimento constante que acaba por levar a parecer muitas vezes, tudo mais grave do que a realidade da ofensa que a originou.
Se perguntarmos o “Porquê” daquela mágoa, olharemos para trás e estaremos com nosso foco na causa, que só fará realimentar o ressentimento. A grande pergunta que uma pessoa pode realizar, após um tempo de vivência e desabafo, se dá através do “Para que”... Para que conservar?...Aonde isto me leva? O que realmente ganho para a minha existência?
Muitas vezes se percebe que a causa desapareceu no tempo, mas o efeito dela a pessoa potencializa na conservação do ressentimento.
A incapacidade de perdoar o destino, está intimamente ligada à ideia infantil de que as pessoas têm que acontecer na nossa vida do modo como precisamos. A posição imatura de desejar uma vida absolutamente encantada, leva a incompreensão de que cada um acontece na vida como pode, cada um age dentro das características e limites psicológicos próprios. Se percebermos que alguém tem o dom de nos destratar e machucar? O que fazer?
Primeiro aceitar que as frustrações são desencantos, mas passam longe de ser um castigo existencial.
A aceitação passa para muitos como um sinal de passividade e fraqueza, mas ao contrário, ela simboliza potência e libertação. Ser dominado por um ressentimento que começa a pesar é se tornar refém passivo do acontecido, sem controle algum sobre a duração do efeito do mundo exterior em si mesmo. 
Um ressentimento é considerado patológico, quando sua permanência se torna muito longa.
Aprender a se desapegar, seguir em frente ou se possível evitar situações que machucam, são grandes conquistas que uma pessoa pode realizar para si mesma.
Outro dia ouvi de um amigo uma piada que pode bem ser colocada neste contexto.
- Duas irmãs entraram numa farmácia e a menor estava diante da balança de pesar e a mais velha a vendo chegar muito perto disse alto: “Não, não irmã, desvia disso! Venha pra cá! Toda vez que mamãe pisa nisto, chora muito!”
A irmã mais velha desta piada pode representar a vivência, a coisa aprendida através da experiência. O saber tirar da situação o que machuca e ficar atento a se preservar daquilo que fere. Muitas vezes podemos desviar dizendo a si ou até mesmo ao outro - “Alto lá! Isso não!”
Nietzsche, em suas longas e profundas reflexões sobre o ressentimento, falou que: “O esquecimento é uma força que promove a vida.”
Estabelecer o desafio de rearrumar as bagagens, através de uma triagem das peças inúteis e das essenciais, conservar aquelas que possam contribuir para se realizar uma viagem mais prática, confortável e bonita é a meta de qualquer pessoa com bom senso.
Uma pessoa pode comer tudo que deseja? Pode... Por que não? A questão é: depois de um tempo o corpo vai acumular e reter de forma que ao invés das reservas trazerem energia, irão dificultar o caminhar. Se movimentar irá deixar de ser algo leve.
Uma pessoa pode acumular ressentimentos? Pode... Por que não? A questão é: depois de um tempo as reservas de ressentimentos retidas irão igualmente pesar e dificultar o caminhar. 
Se movimentar também irá deixar de ser algo leve e o prazer irá se tornar comprometido.
Na verdade podemos tudo... mas nem tudo que podemos, devemos realizar sem medidas...
Tem coisas que são boas, mas que no excesso não fazem bem. Não é mesmo?
Podemos fazer malas enormes, podemos comer muito, beber muito, se ressentir muito, mas o tamanho terá um peso a ser suportado.
Que tal abrir suas bagagens e começar a realizar uma triagem? 
Retire os sentimentos vencidos... mofados... antigos e areje sua alma para que ela se sinta menos sufocada, cansada e possa com esta liberação conquistar mais espaço para o novo.
Vou a Londres. Ao mesmo lugar, mas desta vez de um modo novo. Tenho certeza que estarei no mesmo horário diante do Big Ben, mas o tempo será outro.
Assim pode ser com tudo, o mesmo lugar, mas um tempo interno renovado.
Ponha na “nécessaire” o que for essencial para viver bem e Boa Viagem pelo cotidiano das novas horas.
Está com dificuldade de fazer isso sozinho? Peça ajuda a quem já aprendeu. Diga igual aos Beatles: “HELP !” 
Tenho uma amiga que me disse um dia: “Me senti a pessoa mais civilizada do mundo quando peguei um avião apenas com uma bagagem de mão e outra altamente analisada no bagageiro”.
Um Saber que fez ela se sentir orgulhosa de si.
Fez ela se sentir muito Sabida.
Aprendeu a Retirar O Excesso de Peso no Viver.

Por Manoel Thomaz Carneiro

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Vidas: Você Sabe Saboreá-las?



Gosto muito de entrar em livrarias para olhar guias e livros de fotografias de lugares. Outro dia, folheando um sobre restaurantes, me lembrei de uma mulher que vou chamá-la de Anita, a qual fui apresentado há muito tempo. Na tentativa de encontrar um tema comum a todos para estabelecer uma afinidade, comecei a dizer naquele encontro, que uma das minhas ilhas de prazer na vida era viajar e sobretudo para novos lugares. Destinações desconhecidas me fazem mergulhar na perda das referências que me traz uma agradável sensação de desbravamento das culturas e dos paladares. 
Enquanto falava, Anita me olhou e com um pedido de licença em seu olhar, disse “Detesto viajar... Olho as fotos dos lugares e me dou por satisfeita”. Eu a interpelei um pouco surpreso: “Nem para Tiradentes?” Ela, sem o menor tom de agressividade, mas com uma franqueza respeitável, de uma vez que aquela afirmativa iria restringi-la, me respondeu – “Não gosto de viajar, não gosto de jantar fora... Não faço questão de sair do meu mundinho”.
Lembro-me bem que a partir do que ela me disse, comecei a divagar silenciosamente em minhas considerações.
Pensei Anita. Pensei esta mulher como sendo uma pessoa que ao invés de conhecer um quadro sob os olhos, acharia uma foto da tela suficiente, como se bastasse olhar o cardápio de um restaurante sem nada pedir... 
Perguntei-me: A sua alma se alimenta de que? 
Já pensou o mundo sem a curiosidade para além dos limites visíveis? O que seria de nós? 
Estaríamos morrendo das mesmas doenças da idade média e até mesmo as de épocas anteriores. Mesmo a fotografia que a saciava foi inventada por uma alma instigadora.
O mundo evolui devido a emancipação do conhecimento. O nosso mundo interno também.
O crescimento nada mais é do que se aventurar ao novo estágio: o movimento de renúncia de uma condição para ingressar em outra.
Li uma matéria no jornal O Globo, sobre um elefante na Coreia do Sul do Zôo Everland, que consegue expressar cinco palavras em coreano: olá, sente-se, não, deite-se e bom.
Como declara a repórter, é obvio que o elefante não tem noção do que diz, mas o contato intenso com os humanos expandiu sua possibilidade. 
O elefante não tem o aparelho fonador. Ele consegue dizer as palavras ao criar um meio para superar esta limitação. Colocou a tromba em sua garganta para que no sopro pudesse recriar o som das palavras... 
Se um elefante que rompe seu nicho para se defender da solidão, pois não tinha nenhum companheiro de sua espécie durante anos, estabelece um contato além do que seria o natural e consegue assimilar aspectos que não pertencem a sua natureza, imagina uma pessoa o quanto pode acrescentar em si mesma, ao estabelecer linhas de comunicação e conhecimento com outros mundos.
Atualmente a Organização Mundial da Saúde afirma que nos centros desenvolvidos, uma pessoa de 72 anos tem a mesma perspectiva de saúde que uma de 20. Nossa longevidade é fato certo no mundo atual. No entanto, viver mais deve ser aliado a viver emocionalmente bem.
De que adianta conquistar uma vida longa sem uma cognição bem desenvolvida? 
De que adianta uma pessoa ultrapassar as barreiras cronológicas dos ancestrais e ter uma precária vida mental e emocional?
Hoje se sabe que alguém que assimila mundos novos e que se mantém inserido no contexto evoluído das ideias, desenvolve mais recursos no cérebro, estimula as sinapses e potencializa a sua resiliência, ou seja, fortalece a resistência emocional. Portanto, meu susto em relação a Anita passava longe de um preconceito pelo modo de vida, mas em saber que a permanência num mundo menor é fazer com que o cérebro deixe de encontrar desafios. Deixa com isso de evoluir. É se abrir ao mau porvir, pois o futuro virá, mas a qualidade em vivê-lo depende de cada um.
O psiquismo tem uma tendência natural a inércia, ele é estimulado no encontro com o novo e depois desacelera.
O novo é que estimulou o cérebro do elefante e é evidente que qualquer elemento novo tem o poder de estimular o meu, o seu e o de todos que se aventuram ao descobrimento.
Soube tempos depois, que aconteceu com Anita o que temi quando ouvi o modo excludente com o qual se conduzia. Começou a desenvolver uma senilidade, a partir de uma depressão. Não soube temperar... Vida insossa... Alguns diriam de modo leigo: “Ah... Problema inevitável da idade”. Grande erro.
O que faz com que uma pessoa seja considerada velha? A que ficou parada no tempo. Aquela que se exclui gradualmente do mundo. A que não acompanha o fluxo dos acontecimentos.
Sabe aquele jogo de dados? Que você tira um número e conforme o lado você anda um determinado número de casinhas? Pois é... tem pessoas que andam para trás. Lançam sua sorte ao contrário do que seria favorável a si mesma.
Como disse Freud o importante é criar um mundo sobre o qual você possa e goste de viver. Toda pessoa que se fecha em si mesma, vai se “ensimesmando” e perdendo a habilidade de lidar com a vida.
Se em contato com um novo mundo até um elefante aprende a falar... Imagine o que você pode aprender em contato com um mundo além da sua realidade... 
Aliás, escrevo esta crônica em Búzios, depois de ter descoberto um restaurante que tem um chefe que se chama Máximo, que chegou aqui com seu talento e sem nenhuma experiência com o Brasil. Dada a chance por Dª Amália, proprietária de duas belas pousadas, ampliou o mundo de sabores ao acolher novos elementos. Sua arte sem fronteiras fez dele chefe de um dos melhores restaurantes que conheci na região.
Enquanto “Anitas” escolhem viver entrincheiradas nos mundinhos, há os “Máximos” da existência, que atravessam os limites e constroem a vida dos sabores. 
Pena... que alguns com o tempo se tornam “Anitas” ao invés de se tornarem os “Máximos”.
A vida que vale a pena ser vivida?
Aquela que pode ser aprendida.
Aquela que é expandida.

Manoel Thomaz Carneiro

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Aonde Você Está?


Ao entrar num supermercado em Ipanema, me deparei com uma montanha de panetones. A dois meses do natal já estavam lá.
Diz a lenda que este pão foi criado, no século XVII, por um padeiro italiano chamado Toni para impressionar o pai da menina que ele estava apaixonado. Foi chamado de “Pan di Toni” e é uma das minhas tentações. 
Uma senhora abarrotava dois carrinhos com esta delícia italiana e de tanto que já tinha empilhado, acabou por deixar cair algumas caixas no chão. Vendo a confusão decidi ajuda-la, mas não consegui me segurar e perguntei “Isso tudo já é para o Natal? Ela me respondeu animadamente: “Já estou me organizando, senão minha vida fica uma loucura”. Continuei com minha ajuda intrometida: “Mas se é para daqui a dois meses é bom ver o prazo de validade. Nunca se sabe”. Como se eu tivesse dado uma ducha fria naquela eficiência toda, ela olhou aquela montanha de panetones que havia pego e suspirou irritada com a dúvida que eu acabara de plantar. Senti que eu tinha acrescido nela um dilema que a obsessão não iria deixa-la abandonar. Tinha a partir de então, mais este aspecto agregado aquela tarefa que sem minha interferência estaria quase terminada. Com uma vontade de pegar um para mim, saí de fininho e desejei quase como desculpas “Feliz Natal”.
Ao sair de lá, entrei numa galeria para comprar um queijo do Serro e já na entrada da loja uma árvore de natal.
Quantas datas ainda temos para viver até a chegada do 25 natalino?
Quantas coisas ainda podemos realizar até lá?
Sete fins de semana, oito semanas e várias viagens cabem neste período, muitos jantares, muitos teatros, muitos jornais a serem lidos, pode-se perder pelo menos uns seis quilos, pode-se ter muitos momentos de amor, pode-se tomar ainda vinhos, mudar radicalmente de vida, fazer uma reforma na casa. Cabem muitas vidas neste período. 
Portanto, encurta-lo é desperdiça-lo e muito.
Através do ritmo vivenciado pela indução, pulamos a primavera para já enfeitar a festa do verão. 
Temos na vida o tempo objetivo que é aquele mensurável no relógio e no calendário... Através dele a entrada para o novo ano é daqui a dois meses. Mas temos o tempo subjetivo que é o vivido, e corresponde a uma experiência individual e existencial. Aí o Natal pode ser hoje, o Ano Novo amanhã e os ontens podem continuar sem abertura para acontecer dentro de nós.
Quantos estão com a sensação que o tempo está mais veloz? 
A medida dele continua sendo a mesma, os relógios marcam do mesmo modo há séculos a passagem das horas. As marcações subjetivas do tempo é que foram alteradas pelo modo atual de se viver.
A senhora que já compra o seu Natal, quando chegar lá irá falar do fim de ano, e no fim falará do carnaval e nele irá organizar a Páscoa. E dessa maneira, se condiciona a viver o tempo na medida acelerada e sua mente subjetiva irá viver no amanhã sem capacidade para perceber o hoje. Por isso tem-se a sensação que o tempo acelerou. 
O Eu de uma pessoa que não está situada no agora, se torna impedido de se alimentar das coisas presentes, pois está no imaginário do porvir. Sem estar situado no hoje, ele avança para gerenciar os pensamentos orientadores da situação futura. 
Desse modo, as coisas acontecem fora mas não conseguem encontrar abertura para acontecerem dentro.
Fui a um aniversário e estavam quase todos com seus relógios internos adiantados, no controle do tempo, pois uns iriam viajar, outros desejavam ir ao cinema, outro queria encontrar um amigo. Quase todos já estavam onde não estavam.
Nossos pensamentos ficaram educados para este mundo de milhões de informações e de atividades. Conseguir dar conta de tudo é instigante, porque gera em nós uma sensação de potência. Em cada agora no mundo contemporâneo as pessoas se ocupam em gerar vários amanhãs. O psicoterapeuta americano Jonathan Alpert, sediado em Nova Iorque e que tem um grande percentual de pacientes acelerados e ansiosos de Wall Street, falou que seu consultório não apresenta soluções mágicas, mas é um trabalho de implementar novos comportamentos, novas percepções quanto ao modo de viver para potencializar a sensação de estar vivo e presente na vida... As pessoas investem em tantas coisas, mas se tornaram perdulárias do tempo.
Vi num Fashion Week a Gisele Bundchen falando numa entrevista que em muitas ocasiões corre tanto para conseguir realizar o que precisa, que às vezes tem a sensação de não estar totalmente presente aonde está. Ela sofria do que hoje se denomina “Ansiedade da Ausência de Si”. Você já não sentiu isso? Está tão acelerado que não está no lugar que está, como se a alma estivesse ainda girando por aí, se debatendo, mesmo estando você já sentado? 
Gisele, diz que aprendeu a dar uma pausa, quando chega nos lugares com essa agitação. Faz um exercício rápido de respiração: de olhos abertos inspira forte e solta o ar. Falou que esse exercício dava a ela a sensação de estar viva. Coincidentemente sempre fiz isto. Quando entro no avião, depois de ter verificado algumas vezes passagem, passaporte, colocado bagagem de mão na esteira do raio-X que apita, tiro o cinto, põe o cinto, guarda tudo de novo passagem, passaporte, seguro casaco com um lado e com outro, seguro quatro coisas e quando finalmente me lanço esbaforido no assento, faço logo uma chamada mental: “Presta Atenção Manoel Neste Momento. Se Situa”. E... depois... inspiro e solto o ar. Isso me traz de volta o meu espírito que continuava na corrida pelo aeroporto com todas as coisas, que até depois nos perguntamos de forma secreta se iremos realmente precisar daquilo tudo que carregamos. 
Faço esta chamada de mim toda vez que me sinto sem foco no momento: seja no cinema, no teatro, no meio de uma caminhada... como se chamasse minha alma para o agora. Por isso adoro chegar antes para me ambientar e poder juntar minhas partes e assim me sentir inteiro no lugar. Este é o trabalho de concentração dos artistas antes de se colocarem em cena. 
O tempo é impossível de se multiplicar, sua medida objetiva é sempre a mesma. A sensação subjetiva dele está ao nosso alcance. Podemos senti-lo nos escapando, senti-lo mais lento, mais presente, mas de qualquer modo é bom sempre lembrar: que sempre que cada tempo se coloca diante de uma pessoa, ele se apresenta com um irônico sorriso de superioridade, pois sabe que vive sem nós, mas que sem ele... se torna impossível qualquer um viver.
Em busca do tempo perdido... Saudades dos ontens?
Nada disso autorizo em mim. Quando me vejo muito mergulhado no fora daqui, no porvir de um futuro, recorro ao uso do CHEGA. Digo-me o BASTA, tão úteis para tantas coisas e me coloco vigilante às ciladas de estar ausente aos momentos.
Ultimamente tenho tido é Saudades Do Hoje.
Fixado no panetone, preso no amanhã, a procura de um tempo perdido?
Atenção! Assuma o controle.
Chame a si do mesmo modo que chamamos alguém que sentimos estar distante...
Ei... Psiu... Oi... Aonde Está Você?

Por Manoel Thomaz Carneiro

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Sem Desaparecer no Horizonte da sua Dor


Numa tarde, estava no Leblon, meu celular toca e era a senhora que faz consertos de relógio, para me avisar que o meu já estava pronto. Perguntei se estaria com a loja aberta, afinal marcava quase cinco horas de um sábado. Respondeu-me que não precisaria me apressar, pois ficaria até mais tarde.
Ao chegar à loja, disse – “Pensei que a senhora não trabalhasse hoje após o meio dia. Sorte minha, senão eu só teria tempo na outra semana”. Ela então me falou – “Ah... Sr. Manoel... Trabalho até bem tarde, faço muitas coisas.” E, mudando um pouco o olhar de direção como se estivesse em contato com algo muito profundo, continuou – “Sabe... sou capaz de ficar aqui até às dez horas da noite. Assim... não penso no meu filho desaparecido há quinze anos... por mal de amor. Um dia, muito curvado, me disse tchau, saiu e nunca mais o localizamos. A partir desta época passei a trabalhar muito, criar muito”. E... olhando bem nos meus olhos me disse – “Não posso desaparecer com ele, não é Sr. Manoel?” 
Há tempos a conheço e nunca percebi em seu semblante, uma história de dor. Ao contrário, ela sempre me tocou pela delicadeza e pelo senso de humor.
Ao sair da loja, fui me sentar num café para deixar esta tragédia ganhar forma em minhas reflexões. Em meus devaneios de elaboração daquela história, me lembrei da definição da psicanálise que havia colocado no quadro para as aulas da semana passada, que diz que a depressão se instala pela inércia da atividade psíquica diante da necessidade de uma reação a um fato doloroso, que leva uma pessoa a simbólica posição horizontal de inatividade.
Os fatos chegam e o choque do golpe emocional desmantela a nossa estrutura e essa ferida gera dor. A defesa contra a depressão origina-se da tentativa firme em realizar os chamados atos terapêuticos que representam a busca na luta contra a horizontalidade, através da verticalidade das ações.
Realizei, nesta reflexão do café, que a grande eficiência profissional da minha “Manutenciadora das horas” é o sábio dispositivo do qual ela recorre para não desaparecer com o seu filho no horizonte da dor.
Uma pessoa acometida por um golpe, sofrerá os hematomas psíquicos causados pelo impacto da realidade, mas ela apesar de tudo, deve tentar orientar os olhos para a vida.
Em entrevista para a revista Claudia de outubro, intitulada “Garoto aos 40”, Reynaldo Gianecchini, fala num trecho que durante os sete meses em que parou de trabalhar para cuidar do câncer, sofreu algumas transformações profundas e algumas irreversíveis. Como diz a jornalista que o entrevistou, “...uma das principais mudanças foi a forma de ver a vida. Antes da doença era comum que atravessasse o dia no piloto automático, sem dar bola para os bons momentos corriqueiros como a gentileza de um estranho, a beleza da praia ao anoitecer ou a música que toca no rádio do táxi.” Declarou que no momento em que se tornou possível, rápido entrou num ritmo frenético de trabalho: biografia, teatro, novela e afirma: “Este é um momento de tanta energia que quase me esqueço do que sentia ao entrar no hospital.”
O que ele nos revela ao final, demonstra bem que a história da dor permanece na pessoa, mas a saída terapêutica é dada, a partir do momento em que se desiste de girar em torno dela e que se decide dar continuidade a sua vida.
Fui convidado para ver a exposição “Impressionismo: Paris e a modernidade” que está no CCBB do Rio, onde pela primeira vez mais de oitenta e cinco obras do Musée d`Orsay estão expostas no Brasil.
Percorrendo as salas, me vi no Rio de Janeiro, diante de Gauguin, Monet, Pissarro, Degas, Van Gogh, Renoir, Cézanne, Lautrec, Latour, Sérusier, Duran, Bonnat, Sisley, Courbet e outros maravilhosos.
Diante das telas que retratam a modernidade que Paris vivia no período entre 1850 a 1914 tornando-a a capital mais evoluída da época, pensei nas paisagens internas de cada um desses artistas. Mergulhei em suas realidades psicológicas, nas dores e nas dificuldades de cada um. Mergulhei nos sofrimentos físicos de Lautrec, nas grandes crises de Van Gogh, nas inconstâncias de Courbet e outros com seus dilemas e pensei, que apesar de tudo estavam lá se mantendo na existência através dos desenvolvimentos das novas técnicas, entregues a vida no desejo de retrata-las. 
Se pararmos para pensar, o que é viver senão a entrega na arte de criar sua tela de cada momento inspirado no seu progresso pessoal. 
O que é viver senão a arte de concebê-la.
A senhora relojoeira não conseguirá zerar seu drama, Gianecchini, igualmente não apagará o susto e os momentos de tratamento, mas como os Impressionistas através do encontro de alguma arte pessoal de viver, se estabelecem um CHEGA a paralização e ajustam os relógios internos para as boas horas de cada hoje. 
É com os ponteiros que andam no sentido do futuro, e que deixam para o ontem o que deve ficar com ele, é que devemos seguir. 
É sempre hora de conceber uma nova cena da vida.
É sempre hora de se dar um CHEGA, de se dar um BASTA para não desaparecer no horizonte da sua dor.

Manoel Thomaz Carneiro